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Crónica potiguar

O que nos marca nos distingue

por José, em 16.06.19

Em mais um dia de chuva na capital potiguar, quase a lembrar o inverno português, a diferença é que mesmo refrescando dá para andar de calções e chinelos na rua. Esse cenário levou-me a lembrar de alguns dos momentos e das pessoas marcantes da vida. Dos momentos lembro sobretudo a perda, o sonho e a reversão. No que me refiro à morte de pessoas próximas, ao amor e desalento do amor. Tenho tendência para valorizar menos as etapas académicas mas foram muito importantes, sobretudo o momento da licenciatura, do doutoramento e tudo que me fez chegar aqui. A licenciatura foi particularmente importante pois no meu destino de jovem não estava escrito que um dia seguia para a Universidade, é uma realização em idade adulta que corporiza outras transformações. Tive dois momentos que devo destacar. Primeiro a ida para a tropa cumprir o serviço militar obrigatório. Não me marcou pelo facto da tropa "fazer homens", mas por não gostar de militarismos mas tenho um profundo apreço e gratidão por algumas pessoas. Foi a consolidação de uma fase de abertura ao mundo que já estava em curso fora daquele contexto. Outro momento foi a ida para Lisboa, em particular quando comecei a trabalhar no aeroporto e a respeito do qual digo sempre que conheci uma das pessoas mais mesquinhas que passaram pela minha vida. Ser chefe não é ordenar apenas e disciplina não é humilhação. Não que fosse o visado, mas quem trabalha comigo tem a garantia da minha defesa. Apesar disso guardo muitas memórias de pessoas boas, incluindo nesse contexto. Passaram muitos anos e não voltei a ver as pessoas, mas tive pelo menos uma sra que muito me ajudou em momentos mais difíceis. Tive muitas pessoas inspiradoras. Além dos meus avós relembro uma tia-avó. Pessoa simples, não sabia ler nem escrever, criou filhos, netos e alguns bisnetos. Ainda não conheci até hoje ninguém com o seu sentido de justiça e solidariedade. Vivia para as pessoas e fazia tudo para as ajudar. Tive professores igualmente marcantes logo na escola primária, mais tarde vários outros e outras. Continuo rodeado de algumas dessas pessoas inspiradoras, em muitos casos é um privilégio privar com elas, mas como digo a importância para mim vai para além do status social. Não pensei ainda na questão mas quem sabe poderei inspirar outras pessoas, prefiro que se sintam felizes por me cruzar na vida de cada um, tal como tem acontecido comigo. Devo dizer que os primeiros alunos que um professor orienta também o marcam, tal como o momento. Geralmente existe reciprocidade, mas com os alunos seguintes também. 

Epistemologias do Sul

por José, em 14.06.19

Vou buscar o título a Boaventura de Sousa Santos mas vejo na abordagem parte da questão, tem muitos aspectos a levar em conta, entre os quais a diferença entre países. Ainda que nenhum país se posicione como hegemônico não podemos ignorar a especificidade do Brasil, pela dimensão e diversidade. Na América de língua espanhola terá também as suas marcas determinantes. É bom lembrar que a Argentina já foi uma referência e que o Chile tem algum domínio na economia. Dentro dos países existem igualmente diferenças. Um colega dizia-me que no Mato Grosso tem propriedades agrícolas em que por vezes são necessárias mais de 2 horas para as atravessar e de como a aposta na agricultura facilitou os nov migratórios do Sul, enquanto cidades como São Paulo acolhiam deslocados da seca do Nordeste. Temos também aí diferenças quanto ao tipo de empresas, estrutura e objectivos, sendo essencialmente viradas para os mercados exportadores. No Nordeste, pensando igualmente na agricultura, excepto a fruticultura irrigada, o restante é essencialmente agricultura familiar e/ou agroecologia de base familiar e destinada a mercados locais, na melhor das hipóteses regionais. O Mato Grosso especializou-se na produção de soja, que vende como matéria prima não processada, ou seja, tal como sai da colheita. O mesmo acontece com a fruticultura irrigada e restante agronegócio. Essas actividades alimentam os mercados globais, sendo o Brasil essencialmente um exportador das chamadas commodities, chegando ao cúmulo de importar produtos que exportou como matéria prima. Esse é essencialmente o caso dos combustíveis, que compra por não refinar o suficiente. Essas atividades são geralmente muito mecanizadas, mas por vezes empregam milhares de assalariados em condições precárias. A pequena agricultura se não se associar e criar escala não é competitiva. Mas não é só na agricultura que os lucros somem. Na energia, mineração e madeiras é igual, sendo que pouco fica para as comunidades locais. A alta finança tem parques eólicos, produção agrícola, minas e rudo o que der lucro.

Viver a vida intensamente

por José, em 14.06.19

Também eu vivo a vida intensamente, mas receio que essa generalização tenha diferenças de entendimento e prática. Da minha parte a primeira metade do ano foi mega intensa e sobretudo focada em trabalho, geralmente viajo pelo Nordeste mas não foi o caso, apenas tive três pequenas saídas em trabalho/lazer mas melhor que nada. É verdade que fui a Portugal e espero voltar, o que já é mais que a maioria. Costumo dizer que sou incapaz de dizer não a amigos e a pedidos em que a minha presença possa ser valor acrescentado, o problema é que o dia tem apenas 24 horas. Vá lá, ontem à noite após a aula fui no bar aqui ao lado com colegas e alunos, mas até as pequenas saídas têm sido raras. Não me posso queixar de ter a vida monótona e não ser solicitado. Porém, reconheço que é um ritmo muito elevado e necessito equilibrar. Um pouco de estabilidade do país ajudava. Gostaria de ter tempo para outras coisas, algumas estão em banho Maria à espera de melhores dias. Procuro levar o dia a dia de forma tranquila, ainda que intensa e prazerosa. Por vezes sinto falta de um abraço, outras de um beijo e uma caminhada estrada fora, mas deixo o sonho onde está e sigo o que me faz sentir bem embora a descoberta tenha sempre k seu encanto. Os amigos e a família são a nossa rede e motivo de luta. Não só pelo eventual socorro, mas por serem razão do nosso orgulho e esperar deles algo semelhante. 

"Os portugueses precisam abrir os olhos"

por José, em 13.06.19

Nas redes sociais é frequente ler -se como expressão de indignação face a episódios de corrupção que "os portugueses precisam abrir os olhos". Adorava conhecer o perfil e as propostas dessas pessoas. Fica um ideia das tendências ideológicas e do capital cultural mas que é insuficiente para tirar conclusões. Talvez seja importante saber a diferença entre reclamar e denunciar, por vezes com apresentação de propostas. Aí era bom saber se as pessoas participam de iniciativas da sociedade civil, qual o papel delas no sentido de se encontrarem soluções e que outras pessoas conseguem mobilizar. Largar palavras de ordem não resolve o problema, é apenas ruído. A título individual ou colectivo existem um conjunto de mecanismos que cada um pode usar para denunciar um problema ou procurar soluções. A democracia não se pode resumir a eleições e ao bate boca na hora do café ou da rede social. Na própria hora do café cada um pode mostrar o seu apreço por um estabelecimento ou outro, sendo que essa escolha pode influenciar outras pessoas e no limite determinar o encerramento do estabelecimento rejeitado. Algo de semelhante pode ocorrer com alguns serviços públicos e ocorre certamente no momento de escolha política. Atirar postas de pescada é esvaziar o debate e querer arranjar argumentos para uma intervenção enquadrada nos clássicos mecanismos de comando e controle. Os problemas discutem-se com todos, não com alusão a modelos de despotismo. Essa expressão não passa muitas vezes de uma manifestação de arrogância que se quer sobrepor ao diálogo e participação. Um dos problemas é que as pessoas se acomodam e as afirmações servem para se encostarem.

Grande zoeira

por José, em 12.06.19

Os dias correm agitados e as narrativas ficam para segundo plano, hoje mesmo deveria escrever sobre o Santo António, que no Brasil é acertadamente o Dia dos Namorados. Um país com um santo casamenteiro e escolhemos o Valentim dos presentes. Não me vou alongar no tema, apenas descrever uma breve história. Estava a supervisionar um exame e que terminou ficou na entrada e subitamente o barulho aumentou. Estava na outra ponta da sala não me dei conta, mas uma das pessoas sentadas junto à porta sentiu o incômodo e fez-me sinal. No momento pensei que precisa de ir na casa de banho ou pretendia perguntar algo. Ao chegar próximo disse "grande zoeira!" apontando para fora. Nesta altura do campeonato entendo o significado, anos antes seria chinês. Basicamente significa grande barulheira, grande chinfrin. Pequenas diferença que mostram a diversidade da língua. 

Dimensão social das culturas do campo

por José, em 11.06.19

Já não acordo cedo para regar o milho ou arrancar as batatas. Não pelo facto do clima ter mudado, mas também pode acontecer, mas por esse cada vez maior afastamento da origem dos produtos. Não é apenas da origem da água que nos afastamos. Para algumas pessoas a nascente é a torneira, excepto quando falta, vem poluída ou aumenta de preço. Com os produtos da terra acontece o mesmo, sendo que também com a maioria deles se perderam os laços culturais. As culturas da água eram sobretudo culturas de consenso e lazer em contexto de conflito. Mas também tínhamos "culturas" do cereal e de vários produtos. O cereal é um bom exemplo, pois além do grão a palha sempre teve vários usos com os animais domésticos e até sociais. A palha de centeio era usada para atar lenha, era ou outra palha. Era também usada para chamuscar manualmente o porco da família. E tinha uso nas camas, que sem esponja usavam palha. Dormi muitas vezes nessas camas, a única chatice era a bicharada que atraiam

Preciso assentar

por José, em 08.06.19

Entre as expressões  tenho idade para ter juízo e preciso assentar vai uma grande discussão. Coloquei sem interrogação mas na verdade vai uma grande interrogação. Ainda me considero em idade activa mas sei que a velocidade que permito aos dias não vai ser eterna. Assentar pode ter aqui uma dupla asserção, como quase sempre. Por um lado, de me estabelecer num lugar que me acolha e onde possa trabalhar sem que seja em algo tão passageiro como actualmente, pois sem trabalho ou reforma ninguém vive. Como reforma será complicado só me resta trabalhar. Gostaria de fazer outras coisas nas quais possa usar a minha experiência e aprender algo de novo. Adoro a academia mas não garante futuro e a competição e burocracia geram um enorme desgaste. Por outro lado, assentar igualmente na leitura mais popular de partilhar a vida com uma companheira. Gostaria de ser racional ao ponto de aceitar uma ou outra proposta bem clara, segundo as quais existindo afinidade de pessoas sós o mais óbvio é seguirem a vida juntos. Aqui no Brasil as pessoas têm pressa em estar juntas numa relação. Não sei se é bom ou mau, acredito que se vivam momentos de grande felicidade mesmo não existindo amor, mas entre essa possibilidade e esperar pelo amor sonhado que não acontece venha o diabo e escolha. Gostaria de ser assim prático mas depois de tantos anos a seguir o meu caminho não é fácil mudar de vida assim rápido. Existe a ideia que homem solteirão é mulherengo, nunca fui santo mas o meu foco tem sido o trabalho, família e amigos. Fui fiel sempre que assumi uma relação, o problema está em assumir. Viver só como se sabe não é necessariamente solidão, mas a partilha é uma aprendizagem e descoberta. Mas viver só também é, parece fácil mas é um desafio diário. 

Feminista e/ou independente

por José, em 07.06.19

Em conversa com uma pessoa conhecida, mulher, dizia-me ser feminista, ligando a conotação à ideia de não precisar dos homens para, uma expressão corrente e que se refere à autonomia e emancipação de género. Não deixa de ser uma expressão do feminismo mas é menos abrangente. No Brasil a afirmação de se ver como feminista ganha um outro estatuto que não vi na Europa, ainda que o fim último seja o mesmo. O lugar da mulher é aqui por vezes lugar de bastidores, gestora do lar e mãe de filhos nem sempre com o devido reconhecimento e com voz na sociedade. Ainda assim, várias iniciativas mostram o seu lugar central na sociedade brasileira. Quando no papel de esposa, mãe, "pãe", filha, irmã, líder comunitária. Dou o exemplo de comunidades rurais, nas quais a mulher tem assumido um papel importante na criação de cooperativas, o mesmo acontece em comunidades que produzem produtos regionais e inclusive em comunidades piscatórias. Ser feminista não é uma reivindicação por quotas, aqui ser feminista é lutar para ter voz, pelo reconhecer enquanto "grupo" e pelo respeito. A violência sexual é um problema muito grave, assim como a violência doméstica, que é Portugal é grave mas nada comparável. O respeito pela mulher tem um longo caminho a percorrer. Os autocarros na cidade vão iniciar uma campanha que em português de Portugal se poderia resumir a "guarda lá esse piropo estúpido" (a frase é minha). São situações efectivamente muito complicadas. Podemos dizer que algumas mulheres não honram todas as outras, é verdade, mas o turismo sexual (e homossexual) é outro assunto e pode ser mais facilmente revertido. O foco deveria ser a mulher no acesso a serviços, no seu papel de mulher e mãe, mas também trabalhadora. Existem bons exemplos de sucesso, mas a mulher anónima continua privada das suas escolhas, com a agravante  ainda ontem se falava sobre isso, do companheiro ser mais amigo da cachaça, o que aumenta a violência sobre as mulheres e leva ao fim de muitas relações, daí o seu papel de "pães", mulher que faz de pai e mãe perante o abandono da família pelo companheiro. 

Brasil, a violência que nos rodeia

por José, em 07.06.19

Saiu o mapa com os dados sobre a violência em 2017 no Brasil e que com novos dados agravou o número de homicídios inicialmente contabilizados. O Rio Grande do Norte destaca-se como o melhor dos piores, o que para alguns especialistas não é novidade, uma vez que a construção de prisões federais no estado trouxe as ditas facções e a proximidade com a Europa e mesmo África o tornam atractivo para os negócios obscuros. Apesar de ter o tamanho da Áustria o estado não chega a ter 4 milhões de habitantes, o que o transformam numa espécie de campo de batalha. Tem momentos em que o problema parece perder visibilidade e surge entre a população esperança de tranquilidade, mas logo acontece algo e se activa de novo o medo. Em Portugal também temos problemas de insegurança pública, mas não são nem comparáveis. Subitamente o problema não é apenas pagar a renda e as despesas das famílias, a violência pode varrer as famílias. Perante tudo isto o coração bate e pula, e a desconfiança em relação às pessoas também, pois nem sempre a boa aparência é sinónimo de pessoas boas. No meio de tudo isto é um estado com enormes belezas e riquezas naturais. O turismo sofre, as outras actividades económicas também. É um dos estados com maior produção de petróleo e gás natural, o maior produtor de energia eólica do Brasil, o maior produtor de sal marinho e o maior produtor de melão. 

Em regressão

por José, em 06.06.19

É comum a afirmação segundo a qual vivemos uma crise de valores, ligando-se essa afirmação aos chamados valores tradicionais, geralmente de respeito pelo próximo e de trabalho, sendo que tem quem confunda respeito com obediência. Mas a questão tem de ser vista de forma mais abrangente, pois em algumas dimensões estamos mais expostos à repressão social do mau olhado. Por exemplo, a liberdade para se discutir religião é reduzida na medida que logo alguém acha que as suas crenças são melhores que as minhas e o que eu digo é blasfémia, pelo que a conversa termina ou o conflito vai durar. Talvez não se queimem livros e nenhum de nós vá para a fogueira, mas tem alguns crentes que toma o lugar da Inquisição. Mas não é o único caso. Sou cada vez mais pessoas de etiqueta, adoramos o cerimonial e a embalagem, a vida pode não dar para mais nada, mas adoramos desfilar para fazer rebaixar os outros. Não é apenas para mostrar status, esse exercício vem geralmente ligado à ideia de superioridade de raça, género e outras formas de exclusão. Em contrapartida, a solidariedade pela proximidade é algo que se vai perdendo, existem ainda assim casos felizes. O amor, pelo seu lado, confunde-se com matrimónio e com o conforto de uma relação, o tema em si é evitado, ainda que horas depois do primeiro encontro os amantes se comuniquem com a expressão "amor!". A morte é cada vez mais invisível, como que varrida para baixo da memória. Sei que a for me provoca ressurgimento de emoções e não sou diferente de ninguém. Mas é um facto que cada vez mais se esconde, de forma perfeitamente institucionalizada e se remete ao grupo de perte. O que digo fica bem claro no velório e funeral. Estes são apenas alguns exemplos, poderia dar outros, ontem foi dia do Ambiente e poderia usar alguns do tema. Mas até no simples dia-a-dia. No Nordeste as pessoas sem se conhecerem facilmente dizem bom dia ao cruzarem-se na rua. Em Lisboa tem vizinhos do mesmo prédio que nem bom dia nem boa tarde.

O direito a deixar de viver

por José, em 06.06.19

A morte a pedido de uma jovem de 17 anos que não suportava o trauma de repetidos abusos sexuais relança o debate sobre a eutanásia e sobre o suicídio assistido. Por um lado, temos o facto de ser menor e os país autorizarem admitindo o fracasso do sistema de saúde, o que coloca as políticas públicas de saúde também em debate, sobretudo as políticas que atendam a casos semelhantes, mostrando ser um fracasso. Caberá a cada um julgar a opção destes pais, não creio que agiram de ânimo leve e que tenha sido uma decisão ponderada e dolorosa. Imagino algumas vozes a apontarem o dedo aos pais, acusando-os de falhar, mas será bom conhecer o contexto cultural e pelo menos imaginar o drama vivido. Por outro lado, quem aprovou vai remoer-se e ser algo de fortes criticas pois na prática não se trata de eutanásia mas efectivamente de suicídio assistido. Eticamente é complexo tomar posição perante o descrito. Do ponto de vista jurídico nos países que aceitam eutanásia este caso não seria aceite. Ainda assim, do ponto de vista social parece ser menos dolorosa esta escolha que a opção da própria pelo suicídio, infelizmente uma prática crescente entre os jovens e um problema de proporções preocupantes aqui onde estou. O caso não nos vai levar a conclusões e haverá quem discorde e quem apoio. O importante é que esta morte não seja em vão. Teoricamente ninguém quer morrer, mas a ausência se respostas, a demora e desgaste, por vezes solitário dos processos empurra para estas decisões. Não me posiciono perante estes valores e práticas, mas expresso a minha solidariedade aos pais. 

Dia Mundial do Ambiente

por José, em 05.06.19

Cada vez mais o ser humano anda no mundo da Lua e com uma ficção científica em Marte e um encanto pelos anéis de Saturno. Só não tem a cabeça e o coração na Terra. A única coisa que o move é a soberba e o distanciamento. Não cuida da água mas de tudo lava as suas mãos. Quer ser rei e senhor, mas não sabe o significado de cuidar e herdar. Adora festejar, mas não leva consigo os despojos. Tem uma fixação pela procriação, mas não tem nada para deixar aos seus, nem memória, nem valores e significados. Quer ser bom vizinho, mas não se verga à honradez, prefere o domínio do exibicionismo. Perante tudo isso e o que nem resumido foi, as razões para celebrar o Dia Mundial doAmbiente são poucas ou nenhumas. É uma chatice de celebração, pois nem para o comércio serve. Já foi árvore que deu frutos, mas agora parece que vivemos no limbo, ambiente reduz-se à defesa animal, ao pedantismo de alguma elite que vê aí poder e à militância de quem acredita fazer a diferença. Também ninguém manda usar a palavra ambiente, isso não existe, o que existe é a natureza. É um valor mas como todos carece de uma dimensão pedagógica efectiva e nessa qualidade pode não ser aceite por todos. Se não é internalizado como valor e orientação ética na relação com o outro e com o mundo natural dificilmente é operacionalizado. É atirado para o distante e externo. É algo dos outros. O problema é que nem tem outro planeta nem tem outros, a Humanidade somos nós. Infelizmente parece que só uma tragédia comum será capaz de mudar a nossa atenção, até lá a maioria anda feliz e contente. Troca a bicicleta por trotinete, troca o turismo de massas por luxuosos resorts, troca a alimentação contaminada por petiscos exóticos. Proteger o ambiente não é apenas mudar de hábitos, é assumir outro papel na defesa do planeta e querer fazer da mudança. Nas escolhas a marca deve ser Planeta, essa é que confere status e caracteriza papéis, tudo mais é para alimentar egos que se satisfazem com bens materiais. Nada que um forte abraço ao Planeta não cure. FELIZ DIA DO AMBIENTE.

O amor surtou

por José, em 04.06.19

O amor não espera e não cuida mais do leito, surtou, largou a janela de uma lançava promessas e sumiu. A janela está agora fechada, o leito estéril e frio. As flores nas escadas murcharam. O amor não sumiu mas surtou. Já não sabe quem é, se desejo, bater no coração ou bater no próprio corpo. Já não palpita mais, nem corre. Não é o desejo de hoje que o transforma. É a veneração, a espera ansiosa, a reciprocidade, o ritmo, os intervenientes e os padrões de conduta. A liberdade levou o amor. Tanto mundo corrido, tanta voz na tentação, tudo foi rejeitado, porém, não foi suficiente. Se eram uma prova fragilizou o amor. O beijo esperado assustou-se com as palavras, talvez com o tom. A beleza que encantou foi usada para chegar perto. As promessas foram trazidas por ausentes. Até uma criança ama para além do que vê. O mistério da vida surpreende-nos. Fugimos ao belo e à luz da paixão. Trocamos prendas por sentimentos. Tem quem busque esperança, mas tem quem junte qualidade de vida aos dias com sorrisos. Não são os votos e o respeito que nos movimentam. Mas as marcas de carros, o aroma a perfume e a sexo. O amor já não segue em frente, corre o risco de ser trouxa e mal avisado. A aparência é agora a sua linguagem. O mesmo não aceita verdades nem narrativas. O amor surtou. Se entretém a usar o corpo e a deixar a luz acesa. Fura a fila e o texto. Sai da narrativa para a rua mas nem sempre leva jeans. 

A verdade remediada

por José, em 03.06.19

Em muitos momentos da vida assistimos a coisas no mínimo insólitas e que nos levam a questionar o próprio conceito de verdade e, por consequência, o de confiança. Todos sabemos que quando morre alguém os outros dizem maravilhas, mas existem outras situações idênticas. Uma das situações frequentes diz respeito à verdade dos factos no contexto em que acontecem e ao relato público em alguns acontecimentos por parte de um ou mais protagonistas. Isso acontece em vários contextos com varios protagonistas. Vamos imaginar um/a filho/a que é apanhado/a a fazer algo de errado e na sua desculpabilização diz que tinha chamado a atenção e feito isto e aquilo. Exemplo com professores existem centenas, vamos imaginar que é tutor e age na lógica do deixa para lá, mas no final diz publicamente os erros que deveria ter evitado. Exemplos com políticos são igualmente abundantes e geralmente deixam os assessores loucos. Discutem em privado um problema mas na hora dizem maravilhas das soluções e se for do seu interesse dizem coisas que nem imaginavam dizer. O discurso público aparece nestes casos como que a querer branquear a falta de soluções, colocando quem deveria agir no lugar de comentador objectivo. Aí só sai maravilha, o problema é que depois a realidade é outra.

Deixa pra lá

por José, em 02.06.19

Deixa pra lá no Brasil pode significar não te preocupes mas também pode ser interpretado como vai-te fxxxx. Depende se for em expressão oral e escrita e no caso oral do tom. Tive uma pequena conversa a respeito dos significados e lembrei-me dos meus tempos na Força Aérea, onde fiz o serviço militar obrigatório. Cerca de 1 ano depois recebi um louvor do comandante da base aérea, para quem adorava a vida militar era um dos pontos altos. Pois bem, eu agi nessa lógica do deixa para cá, guardei para mim como criança que fez algo de errado. Detestava e detesto militarismos e receber um louvor a meio da tropa só ia aumentar a minha responsabilidade. No final teria sido diferente, no caso nem à família contei. Era muito comum a atribuição de louvores, não achei que fizesse nada extraordinário para o merecer, ainda que reconheça que já na altura trabalhei imenso. Mas isso de louvores nunca me subiu à cabeça. Pela lógica deveria colocar no currículo, mas "não estou nem aí". Podem pensar que estou a exaltar os meus feitos, não digo o contrário, mas os feitos neste caso são invertidos. Na altura tentei rejeitar a atribuição do título, mas por respeito a um dos meus chefes não o fiz. Foi pena perder o contacto dessas pessoas. Algumas reencontrei em Lisboa noutro contexto, mas as mais próximas e que me ajudaram não voltei a ver. Tinha uma sra civil, creio que da Praia do Ribatejo, que se estiver viva já tem uma idade de respeito, passaram mais de 20 anos. Tinha um colega chamado Cardoso e outro Cruz. Outros passaram muito rápido por lá. Dos chefes muito tenho a agradecer ao primeiro sargento Cruz, se bem me lembro era de Ponte de Lima. Terá mudado para Alverca pois a esposa era professora lá. Era uma pessoa de uma enorme simplicidade, generosidade e entrega. Tinha outros chefes, mas foi ele que meu deu sempre apoio e confiou em mim. Agora fazem parte das memórias de gente conhecida mas já sem rosto com o passar dos anos.

As redes sociais ampliam número de participantes mas não necessariamente o debate

por José, em 02.06.19

O momento actual, dito da Internet das coisas ou 4.0, lembra o início da Internet e da panaceia da participação e ampliação do conhecimento. A ideia era legítima: mais informação iria trazer mais conhecimento e maior envolvimento das pessoas nos processos de decisão. Provavelmente apenas conseguiu ampliar os conflitos sociais e criar um padrão de conhecimento nivelado por baixo. A ideia que o meio é a mensagem não funcionou de forma totalmente positiva. Aproximou as pessoas mas normatizou comportamentos nesse baixo padrão. Também trouxe boas, mas adormeceu as pessoas e funciona por vezes como dispositivo de propaganda. Como agravante, as pessoas deixam de pensar, partilham ideias repetidas, tantas vezes sem respeitar direitos autorais, o mesmo acontece com imagens. O entretenimento ultrapassou a proposta de conhecimento. No caso específico do Facebook havia uma espécie de reivindicação para permitir mais de 140 caracteres, foi aceite, o problema é que as pessoas já nem dos 140 fazem uso. Partilham banalidades, umas que chocam e outras que fazem rir. Uma coisa é certa e é uma vitória para a internet e empresas de telemóveis: não largamos a fera por nada, o telemóvel é uma extensão do corpo, por vezes do cérebro, outras dos braços, outras do órgão sexual e outras do coração. 

Feliz Dia da Criança anónima

por José, em 01.06.19

O Dia da Criança está a deslocar o significado da criança para o negócio e isso é no mínimo assustador. Uma das consequências é a exclusão de tarde das crianças, não é o dia de todas as crianças mas daquelas cujos pais possuem poder de compra. Sendo que mesmo sobre essas muito se pode falar. Tem crianças sem direitos e crianças cujos direitos interrompem as tradições. A criança surge em muitos contextos como elemento de realização dos pais, nada contra, mas é também ou deveria ser uma aposta das políticas e das práticas na reprodução tanto demográfica como cultural. O abandono da ideia de aprendizado que vigorou praticamente até à década de 80 não tem apenas reflexo no comportamento das crianças e jovens, que viram bibelôs, tem igualmente impacto na manutenção de algumas actividades tradicionais e na própria "capacitação" das crianças, que como diz o povo agora não sabem fazer nada. Mais grave é a situação das crianças que não chegam a ser crianças. Algumas começam a trabalhar mal começam a caminhar, outras têm a rua como lar outras não sobrevivem. Vamos celebrar o quê efectivamente? O facto das crianças não irem à escola, não tem condições de sobrevivência, não terem família ou não terem voz nem futuro? Aposto nas crianças que vão ao Macdonald's e recebem prendas, pois na maioria não têm voz nem registo de existência.

VDC - vai dar certo

por José, em 31.05.19

Adoro algumas expressões brasileiras, geralmente de exclamação, como oba! De incredulidade como vixe ou oxente, dependendo se o apelo é à virgem Maria, daí o diminuitivo vixe, ou se é da situação do povo, daí o nordestino oxente. Tem depois as bem correntes Sei, certo, tá certo, tá bom, entendi, etc. O pois é uma exclamação muito portuguesa, assim como o então. Uma expressão bem na moda é o VLC - vai dar certo. Perante tanta incerteza é uma crença descrente mas com tom de esperança. Não se usa em qualquer momento, apenas quando temos uma etapa da vida a ultrapassar. Do género: tenho muita coisa para estudar para esse exame mas vou luta e vai dar certo. Ou a vida está phoda mas vai dar certo. Acaba por ser igualmente uma narrativa que une, pois usa linguagem e códigos que todos entendem.

Adoro quando as pessoas dizem que odeiam mentira

por José, em 31.05.19

Por vezes fico estupefato com as pessoas, nem sei se realmente surpreendido, proclamam o discurso do ódio à mentira mas até parece que é por gostarem do ódio, pois pela mentira a maioria não é.  Sou tranquilo e nem quero saber do que pensam ou fazem, mas ficamos sem saber em quem confiar. A culpabilização do outro é uma estratégia usada para tudo. Vamos salvar o planeta? Vamos  mas que tenho eu a ver com a degradação? Estamos perante uma crise de valores? Estamos, mas lá em casa ensinamos respeito. Estou como diz o outro: PQP (puta que pariu) mas aginal quem tem a culpa? A crise é acima de tudo uma crise de solidariedade, em que a soberba, a arrogância e lavar de mãos são colocados acima da simplicidade e entreajuda. Assim fica difícil reverter este caminho para o fosso.

Esperança insurgente

por José, em 31.05.19

Muito se tem falado por aqui na necessidade de resistência. Construir deixou de ser a palavra de ordem, também se escuta pouco a palavra esperança, pois dizem que não se sabe o que aí vem. Resistir transformou-se para os brasileiros (parte deles) na palavra na ponta da língua. Ao mesmo tempo debatem-se utopias e recalcamentos. O debate das utopias vai para a esperança, projecta o futuro que nós queremos e são um mecanismo para relocalizar o país num contexto mais alargado. Talvez a problematização mereça atenção. Colocar o debate num contexto de neo-colonização não resolve o problema porque falha no seu amplo diagnóstico e situa o país e a América Latina no eixo do problema quando na verdade o problema é global e nele participam igualmente empresas brasileiras. Esse debate vai para além da questão ideológica e da política que está a ser implantada. Aliás, é bom lembrar que os governos anteriores usaram as questões sociais mas na prática foram profundamente neoliberais. O socialismo deles foi a utopia de alguns. Promoveram uma economia agrícola exportadora, favoreceram grandes grupos económicos, etc etc. A ideologia é usada para vender tremoço quando na verdade as pessoas estão a beber cerveja com espetinho mas a bandeira partidária e da alta finança diz que tremoço é bom e num laivo de pseudo modernidade são abandonados práticas tradicionais para o país virar moderno. A afirmação é uma metáfora, sendo que o tremoço nem faz parte da dieta alimentar, mas tem o camarão e outras propostas. O problema é mais grave ainda pelo facto de regressarem velhas formas de dominação ditas patriarcais e clientelares. Ou seja, fica pouco claro onde começa o estado e os interesses particulares, e nessa nebulosa são favorecidos alguns grupos que mantém laços de proximidade e sustentam o poder. Assim fica difícil. Precisamos analisar o problema no tempo longo e não apenas o momento actual, apesar da sua especificidade. São as condições dessa especificidade e o lugar do país na geopolítica que importa debater sem esquecer de apontar para o futuro.