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Crónica potiguar

Crónica potiguar

O Brasil e a cimeira do clima

Novembro 30, 2018

José

Ficámos a saber esta semana que o Brasil não vai organizar a próxima cimeira do clima. Não foi uma surpresa, mas havia esperança que assim não fosse. Se a ideia é reduzir gastos pode, no limite, ser aceite. O problema é que a decisão surgem num quadro de alinhamento com os EUA e de internamente colocar a temática ambiental e climática em segundo plano. É bom relembrar que pouca importa qual a origem das alterações climáticas, é urgente planear o futuro aceitando que existem. Estamos num país enorme, como tal de enorme riqueza ecológica, paisagística e minérios, sendo o ambiente em casos como o turismo um factor primordial. Por outro lado, são bem conhecidos diversos fenómenos climáticos com impacto na vida das pessoas. Desde derrocadas em morros com favelas a secas, desertificação, erosão, ilhas de calor, não faltam exemplos. Ontem comentava a este respeito que o país precisa de uma tragédia para tomar real consciência do problema. Infelizmente Mariana foi uma tragédia, nesse caso de origem tecnológica/humana e esse facto não sensibilizou, pois entraram em palco estratégias de ocultação. A questão climática é grave e potencia um aumento de desigualdades e riscos, não sei como legar este deixa para lá se é possivel tomar medidas.

Detesto esta época do ano

Novembro 29, 2018

José

Provavelmente em Portugal as mensagens de Natal e a imposição de uma certa ideia de Natal estão mais presentes. Completo 3 anos no Brasil, é quase Natal em Natal, aqui não sinto a pressão da comunicação social nem da tradição para a ideia de fingimento de Natal. Existe mas não vejo as mesmas narrativas comerciais e familiares. Sendo que não é nada de agora. A crise já tinha deixado problemas. Talvez a religião explique isso ou a menor importância da televisão. É muito família. Claro que vai ter árvore de Natal, mas não tem as densas narrativas da consoada. Seja como for nunca simpatizei com esta época do ano. Além do Natal tem a transição de ano, em qur geralmente fazemos como que um balanço do ano e novos projectos. Quando na verdade só muda de dia e ano.

Estamos na encruzilhada

Novembro 25, 2018

José

Todos os dias nos martelam a cabeça com a poluição dos oceanos provocada pelos plásticos e com o beco sem saída que é a sociedade fóssil. Receio que muitas medidas não sejam escutadas apesar de repetidas de forma mimética. Podem até ter um efeito contrário, como já apontei algumas vezes. A referência ao plástico que contamina os oceanos como que desculpabiliza o sujeito individual da culpa. Não o isenta, mas não coloca directamente nas práticas individuais a solução. Até pelo facto de em países como Portugal existir uma política de redução do uso de sacos plásticos. No caso das energias fósseis o caminho é longo e o problema não está no preço dos carros eléctricos ou na possibilidade de afinal poluirem mais. Em um e outro caso precisamos uma mudança que vá para além de opções técnicas, pois é isso que tem sido oferecido. Precisamos mudar o modelo e produção e consumo, assim como de mobilidade e participação. Vão dizer que estas instituições não servem? Na verdade têm mudado de nome para se adaptarem, o problema é que não mudam para mudar o cidadão, mudam para dar resposta ao tal de mercado. E os cidadãos servem? Temos aqui um longo trabalho a realizar e no actual quadro político internacional vai ser muito difícil. As religiões que funcionavam em muitos casos como pilar moral são agora corporações, as empresas são exércitos, os partidos são instituições desviantes. Fica difícil assim apesar do exemplo de alguns políticos e países. Temos ainda outro problema para resolver, também ele sempre difícil e adiado. O descompasso da implementação das políticas e tecnologias nos dois hemisférios. Se continuamos com dois pesos e duas medidas estamos perdidos. Temos vários exemplos por aí fora. A Noruega contribuí para a defesa da Amazônia mas uma das suas empresas foi apanhada a infringir a lei no "descarte de rejeitos". A poderosa brasileira Valle tem situações pouco amigas do ambiente e das comunidades no Brasil e Moçambique, mas no Canadá respeita as regras ambientais. Não acredito na força de uma ordem global mundial, seria manipulada, só a cidadania deixa esperança, o problema é que se vê de mãos atadas cada vez que a economia abana. Vamos desistir? Não, vamos debater e defender o bem comum. É bom lembrar que a opção pode (ou deve) ser largar o carro, mesmo eléctrico e viver de outro modo. Ainda tem alguém disposto a prosseguir essa caminhada? Pois, acredito que o número seja reduzido. A opção em muitos casos não é cortar o mal pela raiz mas iniciar a transição.

A lógica da reforma

Novembro 24, 2018

José

Entrei tardiamente nesta vida profissional, com a agravante de em Portugal ser milagre conseguir vínculo, como tal o meu caminho é que diverge dos objetivos da maioria. Refiro-me basicamente aos funcionários públicos, pois são as referências mais próximas, ainda que não seja o meu caso. Em Portugal ou no Brasil o objetivo depois dos trabalhadores conseguirem vínculo é a reforma/aposentadoria. A leitura é muito sintética, tem casos e casos e tem todo um percurso, mas genericamente assim é. Falo com colegas mais jovens que se babam só de pensarem nisso, sobretudo perante a firme certeza que vão receber uma quantia que permite ter uma vida tranquila. Sendo que vejo nisso em pessoas altamente qualificadas, como se as grandes transformações do mercado de trabalho e apoio social vivessem momentos de glória. Não sei como fazer quanto a isso, dou cada dia o meu melhor, mas o meu vínculo é bom para currículo mas volátil de ponto de vista empregadício. Por outro lado, é complicado organizar um pé de meia e não me estou a ver a encontrar uma mulher rica interessaa, usando a abordagem mais popular na resolução do problema. De momento faço descontos num país que não é o meu e onde estou a prazo, vamos ver o que o futuro me reserva. 

Citadinos no campo

Novembro 21, 2018

José

Nasci e cresci em meio rural, pelo que tenho uma pequena ideia do que é passar um dia no campo ou morar vários anos. Não me refiro a questões estruturais, pois sabemos que é na cidade que está o investimento e o emprego, pelo menos o emprego qualificado, pois se pensar lá na terra tem muita oferta em fábricas que pagam o ordenado mínimo. Estou a pensar em pequenos pormenores, por vezes a gastronomia, a organização das ruas, o trânsito, a maneira de ser das pessoas. No último fim de semana fomos brindados com autênticos tesouros da fauna potiguar. É verdade que no campo e com calor as moscas atacam mais, mas em poucos minutos fomos presenteados no quarto com uma barata enorme, uma aranha também grande e uma rã. Na manhã seguinte, de visita aos miradouros, cada um com um restaurante, ao puxar a água do autoclismo 3/4 rãs surgem na parte anterior da sanita. Estamos no semiárido e os animais arranjam estratégias de adaptação.

Turismo de gringos

Novembro 20, 2018

José

A imagem é da praia de Iracema, em Fortaleza, mas poderia ser de qualquer lugar. O objectivo é reflectir um pouco, muito pouco, sobre as escolhas dos lugares. Vejo o Nordeste com muito potencial de expansão turística mas tudo se concentra no litoral e em praias com certos atributos. É uma pena que o interior não cative nem os brasileiros. Pelo que conheço é um turismo muito regional o que chega ao interior, ainda assim tem lugares com boa oferta hoteleira, de gastronomia, animação cultural e locais para visitar .

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Costumo dizer que não faço questão de ir para lugares típicos das rotas turísticas, normalmente cheios de gringos e com uma oferta que tanto encontram em Pipa como no Algarve ou outra praia internacional.

Dia da Consciência negra

Novembro 20, 2018

José

No meio de várias pressões e retrocessos hoje celebra-se o Dia da Consciência Negra ou talvez deva ser o Dia da Consciência Branca se analisado na perspectiva da tomada da consciência para a não existência de seres superiores. Não temos como apagar a história, nem creio que se deva fazer, mas deveríamos convergir no sentido de encarar o outro como um igual. Não sou crente mas a própria Igreja deveria ter um papel mais activo, infelizmente não passa de uma coisa burocrática que quer dominar as almas. Tenho amigos em vários países e de todas as cores, o que para mim pouco importa, o que importa é que são pessoas e nesse quadro têm toda a dignidade e devem ser assim tratados em face dessa dignidade. Este sucessivo rebaixar dos mais desfavorecidos é um caminho que não leva à felicidade de ninguém, apenas alimenta maus olhados. 

Tem momentos que dói

Novembro 20, 2018

José

Aproveitando o benefício das telecomunicações, praticamente todos os dias ligo para a minha mãe. Cerca de 6 mil quilómetros de distância não é o mesmo que morar em Lisboa e na sexta-feira no fim da tarde apanhar o comboio. É muita distância e muito mundo a separar. Por vezes não temos muita coisa a dizer, apenas se chove ou faz Sol, se está a dar a novela ou jantei (tendo em conta a diferença horária é essa a ordem). Falamos obviamente de outras coisas, mas esses são temas diários. Hoje foi um daqueles dias de temas recorrentes. Faleceram duas pessoas na aldeia e esse tema é sempre complicado de abordar. Após os 80 anos e com as pessoas em redor a desaparecerem não é fácil de aceitar. Ninguém sabe o destino, mas qualquer pessoa encara a questão com uma dor no peito, até pelo facto de em muitos casos serem vizinhos, familiares ou amigos que partem. É bem mais instigante falar do frio que chega, ainda que arrepie, a perda de membros da comunidade é também a nossa perda.

Tanta diversidade neste Brasil - Martins, Rio Grande do Norte

Novembro 19, 2018

José

Foi mais um fim de semana de viagem pelo Rio Grande do Norte, um pequeno país dentro deste grande continente que é o Brasil, o equivalente Áustria. Gradualmente conheço um pouco mais, leva tempo e exige meios e disponibilidade. Desta vez o destino foi a Martins, no interior do estado, a cerca de 350km, ainda que na prática se façam mais de 400km. A estrada, apesar dos pesares, é boa, ignorando 3 ou 4 pontos praticamente sem alcatrão, que levam uma eternidade a percorrer. Fora isso são quilómetros e quilómetros de retas e mais retas, algumas com 20 ou mais quilómetros. Felizmente não apareceram muitos camiões (caminhões por aqui), pois nem sempre é fácil ultrapassar. 

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O tempo estava muito quente, mesmo no topo da serra de Martins, que fica a 700 metros de altitude. O percurso lembra o Alentejo, o bioma caatinga só difere no tipo de vegetação, pois a paisagem e o calor tem por vezes traços semelhantes. Não é assim em todo lugar, pois não existe um sertão mas muitos sertões. Por vezes com vegetação muito rasteira e sem árvores ou arbustos, outras vezes com uma ou outra árvore no meio do campim amarelo. Depois tem as serras, pois, ao contrário de qualquer suposição, o estado não é necessariamente plano. É bom lembrar que tem pelo menos a Serra de Santana e a continuidade da grande Serra da Aboborema, que vem da Paraíba. Depois tem outras serras e elevações.

Martins é uma cidade muito bonita e cuidada. Sem lixo na rua, passeios arranjados, com poucos carros a circular pois o povo anda de moto. Gente muito simpática e acolhedora. Tem quatro mirantes/miradouros oficiais: Canto, Encanto, da Carranca e Mãe Guilé, os quais têm um restaurante/bar, sempre muito bons. Não oficialmente, próximo da Carranca tem um ponto fabuloso para ver o pôr-do-sol, seguindo à direita antes da Carranca para as antenas de telecomunicações.

Sinais preocupantes

Novembro 15, 2018

José

A escolha dos ministros e o recente episódio de retirada dos médicos cubanos deixa preocupação entre os eleitores de todos os partidos. O programa estava a dar bons resultados e conseguia chegar a extractos da população mais fragilizadas. O problema não deve ser visto também neste caso como ideológico, pois vai ter custos elevados e sobretudo impacto na mortalidade e qualidade de vida das populações. É necessário serem pensadas alternativas urgentes, pois se nas cidades maiores o atendimento é complicado, em cidades pequenas e distantes mais ainda. O SUS não é comparável ao Serviço Nacional de Saúde, mas funciona, desde que tenha médicos. Acredito que a pressão sobre o governo virá da sua base da apoio e será encontrada uma alternativa. Mas é preciso agir rápido. O problema não é em alguns casos recorrer ao plano de saúde privado. Tem cidades onde é impossível ter plano de saúde. Algumas coisas sabemos que resultam de futuros arranjos, deveremos reagir com calma, mas neste caso o impacto sobre as comunidades pode ser grande e levará tempo a reparar.

Apertar o cerco e defender

Novembro 12, 2018

José

Nada de anormal, todos sabemos que em contextos mais fechados se aperta o cerco em nome da defesa do interesse particular. Seja qual for a ideologia das pessoas a prática é exactamente a mesma, o pior é que se dizem defensoras do interesse colectivo. Em Portugal é igual, não vamos ter dúvidas. No Brasil tem algumas nuances, sobretudo tendo em conta o facto da classe média representar em muitos casos apenas cerca de 1/3 da população. Pode parecer que a questão não tem a ver com isso mas tem também, pois o baixo capital social permite formas de dominação que temos mais dificuldade em encontrar em sociedades com maior capital social. Assim, vamos assistir a um fechamento cada vez mais e em vários domínios. Tanto na relação interpessoal como de forma mais abrangente. Em casos que se associa a um discurso pela transparência de combate às desigualdades parece piada, o problema é não ter piada. Apesar disso, essa componente é o mal menor, o que é realmente ruim é as pessoas assumirem isso como espcificidade brasileira, o tal jeitinho e coisas mais. Esse é que é o problema, pois, como digo, essas situações ocorrem em muitos países, assumir isso como normalidade, rconhecendo o erro, é que é gravíssimo. 

4:30 e o dia a clarear

Novembro 12, 2018

José

Como durmo pouco tem dias em que acompanho o nascer do sol e o gradual canto dos pássaros. Na verdade é em simultâneo. São 4.30 da manhã, a luz prata surge na janela e os pássaros cada vez se escutam mais. Teve um momento em que os vizinhos tinham um galo, actualmente são apenas os pássaros nas árvores de algumas casas e no campus universitário que fica a cerca de 200 metros. Quando cheguei ao Brasil em 2016 senti grande diferença, pois os dias iniciam-se cedo, pelo menos o nascer do sol é cedo, e por volta das 17:30 fica escuro. Dormir com claridade não foi fácil, lá me habituei. Daqui a pouco espero dormir mais, pois o dia acaba por ser longo. Geralmente começo a trabalhar pelas 8horas. Tem quem durma após almoço, não consigo ter disponibilidade, ainda que por vezes descanse um pouco, mas muito raramente. A grande diferença não é só na madrugada, sempre gostei de dias como muita luz e cair a noite pelas 17:30 é muito ruim. O dia não termina aí, mas é diferente. Este fuso horário não faz sentido.Mas 

Brasil é cultura

Novembro 09, 2018

José

A ideia que trazemos de Portugal é que o Brasil é futebol, corrupção, insegurança e música. O futebol não é bem como se diz, depende da cidade. Por exemplo, no Rio Grande do Norte e diria no Nordeste, não vejo adeptos como em Portugal, acho mesmo que a maioria nem liga. A corrupção e insegurança todos conhecemos os problemas. A música não é só música, pois é um país de grande diversidade cultural (e ambiental). O próprio Nordeste já é muito rico. A música e dança apresentam diferenças entre cada estado: o forró talvez domine, mas tem frevo, tem samba, tem o baião de Luiz Gonzaga, etc etc. 

Partilho um vídeo do Grupo Xaxado de Parnamirim, arredores de Natal, que tive oportunidade de conhecer recentemente. Os trajes e coreografia evocam o sertão, em particular cangaço de Lampião e Maria Bonita.

 

Escola sem partido

Novembro 09, 2018

José

O debate anda quente com a discussão da escola sem partido. É um tema polémico e interpretações à medida. Razões de parte a parte e falta de razões de parte a parte. A direita quer interferir na escolha programática, a esquerda pensa que existe liberdade se a opção estiver nas escolhas que propõe. Na verdade não é bem assim, pois a proposta é "muito redonda". Nada deve impedir ao professor de simpatizar com qualquer ideologia, mas é dever do professor confrontar ideias. Por exemplo, nos últimos dias alguém fazia uso do conceito de racionalidade ambiental de Leff, nada contra, mas não debatia outras ideias. Existe aqui um enorme espaço de progressão e entendimento que passa essencialmente pelo professor. O que cada um pensa é importante mas o debate ideias não deve abandonar possíveis ideias contrários. Instigar saber e conhecimento é isso. Não estou necessariamente a defender a direita, que pensa que o controle e via única são solução.

Muita loucura paira do ar

Novembro 05, 2018

José

Para estrangeiro é muita loucura que paira no ar, com notícias de regresso da ditadura, suspensão de movimentos sociais e alguns partidos. Quero acreditar que tem muita contra-informação, que uns acusam os outros de notícias falsas mas a estratégia é geral. A via optimista é pensar que foi apenas uma mudança de cara e tudo vai em frente no sistema democrático, pois é isso que se espera de uma eleição. A via negativa é aceitar os fantasmas do passado e especular com a ajuda deles. Não sei se esse cenário se consegue aplicar assim como dizem. Primeiro, vamos acreditar que as instituições ainda funcionam, apesar dos pesares. Segundo, qualquer regresso ao passado vai abrir uma guerra no país, pois não creio que as pessoas simplesmente fiquem quietas, inclusivamente os apoiantes no acto eleitoral. O Brasil não é mais um país da América Latina, muitas vezes dizemos América Latina e Brasil, dada a dimensão e diversidade, por conseguinte, não é fácil esse regresso, mas vamos ver o que vai dar. Que é preciso mudança é, se as mudanças previstas vão ser boas é outra coisa.

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