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Crónica potiguar

2019 está a chegar

por José, em 31.12.18

É tempo de se gritar que se é feliz e amamos vizinhos, familiares, conhecidos e estranhos. É tempo de se lançar fogo de artifício para se dar côr à esperança, como se o brilho maior não fosse o nosso mas  aquele com que pintamos o céu. É tempo da amizade mais estranha. Do coração que se aperta pela distância, mas também dos apertos da vida, ao fazer-se contas e não saber como bater certo. É tempo de espera, pois cada dia tem, afinal, 24 horas e o que custa mais é passar as 23h59 min, depois a emoção toma conta dos copos e dos sorrisos, como que a renovar votos por mais uma vida e por mais momentos de alegria. É tempo de tudo, mesmo que nada aconteça e amanhã nem o espelho nos fala. Tudo nesta vida parece ter um sentido, mas tem sentidos que não entendemos, pois pouco acrescentam, ainda que sejam festa e resistência. Um dia não sei se vamos acordar assim felizes, talvez a noite espere e o amor seja mais que um sintoma. Temos tanto predicado para descobrir, mas a cada dia e cada ano preferimos a repetição, assim ávidos de mostrar que nos sabemos comportar ou, pelo contrário, sabemos ser rebeldes. Apesar dos defeitos, reencontramos os beijos e abraços, como se fossem glórias e fantasias, porém, na verdade renovados. Nem tudo é névoa no vale quieto, existe mudança no olhar e na brisa. Tem sol que espreita e espíritos com vontade de perguntar que lugar é este onde ficamos sem reclamar. Também o silêncio se arrepia, talvez pelo medo de se executar, pois haverá na consciência muitas inquietações que queremos deixar na noite. Amanhã se fará dia e tudo se repete, somente as contas se alteram e a oportunidade de se chegar mais longe. Vamos ser assim felizes para que a luz não escape e a blasfémia ignore o nosso desejo. Feliz 2019.

Feliz 2019

por José, em 30.12.18

 

 

Apesar dos pesares, 2018 foi um ano bom. Agora não tem outro jeito a não ser a preparação para nova etapa. Eu te saúdo Novo Ano, como quem diz para seres livre e nos permitires sonhos e contratempos. Peço que reserves a felicidade estampada no coração e a energia que sai do meu peito. Para mim peço paz, desafios e encantos. Para todos desejo paz, sensatez e solidariedade, na serenidade que os dias deixarem e na energia que da nossa força se alimenta. Podemos sempre fazer mais e melhor, mas é na amizade e em cada etapa que a vida segue. Não mudamos o mundo, mas podemos não voltar a repetir erros nem esperar que honradez dos gestos. Temos tanto para descobrir que só o afago nos deixa partir e partilhar tanto o quanto se colocar a descoberto. Haverá dias longos e dias sem forças mas a compaixão e alegria nos permitem chegar. Votos de FELIZ 2019. Boas Festas.

Bom era acordar em 2019

por José, em 28.12.18

Não é segredo que detesto esta quadra, dá vontade de fechar os olhos e acordar em 2019, com as festas já findas. É óbvio que me divirto e visito familiares e amigos, mas isso não significa que goste do momento. Ainda por cima Natal e Ano Novo, um mal nunca vem só. Não é por interromper o ritmo ou pela falsidade de emoções, e por tudo. Queremos sair ou está tudo cheio ou está fechado ou é caro. Detesto sair por ser nesse dia que todo mundo sai, gosto de sair quando quiser e os amigos também e sem necessidade de vestir bem ou mal ou ficar em stress. Gosto de alguma rotina e de ser eu a marcar a quebra. 

Adeus 2018, vais deixar saudades

por José, em 28.12.18

Apesar dos possíveis pesares 2018, até agora, foi um ano bom. Sei que foco o balanço essencialmente na vida profissional, pois é a que de forma estruturante tem mais influência sobre outras dimensões da vida, mas dentro ou fora dessa esfera não me queixo. Teve algumas mudanças e o prosseguir do meu percurso, mas o desafio e os momentos bons vividos deixam-me feliz. Nada se consegue sem esforço e nesse campo foi de facto um ano esforçado, mas de bom espírito. Não viajei como gostaria, mas nem me queixo, pois estive em Portugal e fui a uma capital da América Latina, além das viagens pelo Nordeste, que foram em bom número. Aí nem tudo foi trabalho ou se foi trabalho deu para conciliar. Foi o ano de novas amizades e uma porta aberta para outras mais. Sentimos sempre falta de algo, mas no caso não passa de um desejo de conhecer mais. Estou feliz com os afectos, mesmo que não sejam perspectivados a pensar no futuro. Quem não tem filhos vive a vida em função do que faz, dos copos e dos sentimentos. Bebo alguma coisa mas nem tanto, quanto aos sentimentos têm ficado para segundo plano e 2018 não foi ano de excepção. Sentimos sempre ausência de sentir algo mais forte, mas a cumplicidade é um bom tónico para a nossa felicidade. Morar longe dos nossos é outro processo afectivo nem sempre fácil, pois não é só apanhar o avião e chegar. Além das horas de viagem tem o problema dos elevados custos. Mas vai dando para estar um pouco em cada lado. O sentimento esse permanece firme no referente à amizade e laços familiares. Não se concretizou a publicação do livro conjunto de poesia, nem o meu segundo individual, mas não é nenhuma empreitada e 2019 vem a tempo. Queria ter mais saúde mas isso em parte depende de mim. Sinto que cada vez o meu corpo resiste à insulina e isso pode trazer dissabores, mas em face dessa consciência espero fazer pequenas alterações no quotidiano. Levo uma vida simples, o mais distante de luxos ou necessidades nem sempre básicas, não quero é virar venho eremita, pois devo aproveitar cada momento. É isso que tenho feito. Busco a felicidade nas pessoas e nos momentos, não me elevo com a candura do material nem como a exaltação do que posso fazer ou onde posso chegar. 

Para além da sustentabilidade

por José, em 27.12.18

Os tempos merecem a nossa atenção, pelo futuro das nossas vidas e carreiras, mas também pelo planeta e relação interpessoal. Necessitamos relançar o debate sobre a sustentabilidade para além da sua ligação com a temática ambiental e climática. Sem redução de desigualdades, sem emprego que dignifique patrões e empregados, sem ética na política e sem boa relação com amigos e vizinhos não haverá sustentabilidade. A competição não é só pela exploração de recursos naturais, é também pelo orgulho da nossa galinha ser melhor ou pela nossa arrogância de uma superioridade bacoca. Precisamos de alternativas não só de consumo e produção, mas na relação com os outros e no nosso papel de cidadãos. Vivemos muito do favor e da obediência tácita, o que nos acomoda e retira liberdade. Precisamos ir para a rua debater os problemas, mas também dizer bom dia às pessoas. Como vamos salvar o planeta se damos ouvidos a incautos e se abdicamos de dizer que estamos presentes e contamos? Adoramos luxos e desconfiamos dos pobres, sobretudo do cheiro a preconceito, da roupa de feira e da falta de dentes, das palavras trocadas e dos palavrões. O que é certo é que o desdém apenas aumenta rupturas e consolida velhos poderes. Não precisamos forçar a convergência, necessitamos iniciar a caminhada, pois leva tempo e exige mãos nas mãos. Falta uma voz guia e uma luz, mas estamos cá todos nós e só juntos podemos inverter tanto antagonismo e falta de rumo. Para tal precisamos ir para além da ideia de sustentabilidade clássica, precisamos nos ver em outra ideia de natureza e relação com o cosmos, o que implica olhar os outros como quem acha o horizonte e olhar para a nossa acção como quem convoca a liberdade e responsabilidade de nós e dos outros.

Maria não vás com as outras

por José, em 25.12.18

Vivemos um individualismo de romaria, em que por conveniência nos entregamos ao gosto e valores das massas. É um individualismo que cultiva valores próprios quando convém. Em regra segue o chamado das massas, obedece ao desejo de um guru do comércio, da religião ou política. Não tenho opção definida. Se as massas correm para a fronteira é para lá que vamos, mas se decretam o abandono a nossa sensibilidade deixa de existir e prefere adorar plantas e animais e esquecer os povos. E se as massas se vestem de rosa o mundo vive o seu momento cor de rosa, mas larga o sonho. O individualismo de trincheira e as mensagens no sentido de um mundo melhor é tudo abandonado. Haverá tsunamis de gente a fugir de si mesmo, intercalados com gritos de satisfação pelo fracasso dos outros. Não sei se o problema é cada um viver isolado e seguir por si ou se responder a qualquer voz de comando. Tem gente a sair do armário ou a entrar nele. A liberdade é vista por alguns sectores como um luxo, uma transgressão a essa ideia de ir com os outros. A ideia de civilização e desenvolvimento integrado dá lugar aos desejos restritos e colocados em prática por quem quer dominar. Preocupo-me com estes automatismos e esta estratégia para dominar, como se a felicidade fosse uma concessão e não um caminho que fazemos juntos.

Coletes amarelos

por José, em 20.12.18

As manifestações dos chamados coletes amarelos deve ser analisado com olhos de ver. Em França começou por ser um movimento contra as medidas que iam promover a transição energética para combustíveis alternativos, pois os mais pobres seriam os mais afectados. Rapidamente foi controlado pelos partidos dos ditos extremos para daí tirar dividendos. Em Portugal é um movimento dito apartidário mas alinhado à direita. Na verdade o movimento em Portugal contesta o governo e as políticas desiguais. O problema é que as políticas de direita foram iguais. Ou muito me engano ou o movimento contesta as instituições e não apenas as ideologias, daí ser criticado e temido pelos sindicatos e até pelo senhor presidente da República. A ideia de anarquismo não vai melhor as políticas. É preciso mais que contestar, é necessário propor. Sou contra o que o movimento representa mas a favor da manifestação pois o país é democrático e faz-lhe bem um abanão. Espero que daí se retirem consequências e sobretudo acções concretas.

Encontrei um relógio

por José, em 20.12.18

Não foi agora mas na semana passada, após o regresso de almoço, encontrei um relógio no meu gabinete/sala. Achei estranho, pois a porta está sempre fechada e apenas a senhora da limpeza e quem gere o edifício tem acesso à mesma. Durante a manhã estive num evento e talvez tenha sido o motivo, mas com outras salas disponíveis não sei o motivo de usarem a minha. Aqui pelo Nordeste é muito típico as pessoas dormirem um pouco por volta da hora de almoço. Não é a nossa sesta, na verdade diz-se "tirar um cochilo". Provavelmente foi o que aconteceu, pois o relógio está cuidadosamente colocado junto a um aparelho que aqui se usa muito - um estabilizador de corrente eléctrica. É um relógio banal, provavelmente nem 10 reais vale, mas quem o colocou teve esse cuidado. Só não parece ter vindo à procura dele. Da minha parte guardei-o igualmente cuidadosamente. Deixar de usar relógio, não o quero para nada e deve fazer falta à pessoa. Não perguntei à pessoa que trata deste piso, pois podem nem ser dela e não quero embaraçar. Não quero com isto dizer que vieram fazer alguma coisa indevida, nada disso. As pessoas trabalham juntas e por vezes ficam no mesmo lugar durante o descanso. É muito comum ao fundo do corredor ver alunos (ou alunas), esticados no chão a dormir. O sol nasce por volta das 04:40 da manhã, mesmo que as pessoas cheguem às 07:00 horas o dia é longo e necessitam de um pouco de repouso. Sem esquecer que o calor e humidade do ar dão enorme desgaste. Vou guardar o relógio, quem sabe tem alguma história mais para contar.

No Natal digam apenas que me esperam

por José, em 20.12.18

Sei que para a maioria o Natal é um momento de fé e sobretudo bom para o negócio. Da minha parte não peço muito. Não dou importância a questões materiais e deixo a fé com cada um. Por isso mesmo, somente desejo que no Natal digam apenas que me esperam, essa é a prenda que me deixa mais feliz. Tudo mais são elementos simbólicos com os quais não combino e por vezes são competições e posições que interessam aos próprios. Em muitos casos não se trata necessariamente de fé ou fraternidade, a quadra e quem a exalta apela a sentimentos de troca material e pretensamente simbólica que vão para além da paz e do afecto. Tem elementos bons? Obviamente que tem. Crentes e não crentes acabam por aceitar o Natal na sua dimensão de união, renascimento e festa global. Mas as transformações têm sido tantas que deixei de seguir esse caminho. Lembro as meias e os chocolates que os mais pais enviavam de França e a minha avó colocava numa bota deitada junto à lareira. Sabia quem era mas deixava de ficar feliz por isso, pois era um momento em que me aproximava dos meus pais e me sentia igualmente como membro de uma comunidade. No último caso estou a pensar sobretudo na fogueira de Natal, que na aldeia cada ano se vai repetindo para nossa satisfação. É sempre bom receber aquele calor, não apenas da fogueira, mas dos amigos e familiares que na noite fria se juntam. 

Ensinar e inspirar

por José, em 19.12.18

Seja no ensino básico, secundário ou na Universidade, em Portugal ou no estrangeiro, a principal missão do professor é ensinar, todos sabemos, mas a principal ambição é inspirar. Tem sempre aquela discussão do que é educar para aquisição de conhecimentos e educar no sentido de consolidar algumas regras básicas de convivência em sociedade, atribuindo-se a primeira tarefa à escola através do professor e a segunda à família. Porém, em muitos casos o professor é um inspirador que ou orienta para a vida ou nunca será esquecido. Não se trata necessariamente de uma orientação moral, mas estímulo, visão das questões e projecção sobre o próprio lugar que ocupa e sobre o seu percurso de vida. As suas palavras, o domínio dos temas, o reforço de orientação quando por vezes o aluno não sente motivação por um tema. Quem está de fora vê tudo como dado e racional, mas os dias e as dinâmicas ajudam ou bloqueiam o aluno. Alguns professores preferem seguir com a matéria, outros preferem abordar o aluno. Não estou a dizer que sou perfeito, até por ser geralmente exigente, mas essa exigência resulta geralmente do facto de saber que podem fazer ainda melhor. Também já tive turmas complicadas. As disciplinas optativas são boas pois o aluno sabe ao que vai, o problema é que tem menor número e por ser opção é encarada com descontração. Mas temos de insistir e usar metodologias inovadoras nas aulas.

Viver nos limites

por José, em 19.12.18


Talvez a ansiedade me leve ou me dê a energia suficiente para continuar a caminhada. Surpreendo-me ao ler que algumas pessoas dizem de si própria que vivem a vida intensamente, até ao limite. Algumas que conheço pessoalmente nem me atrevo a comparar. Sei de uma ou outra que supera limites, mas sei da maioria que isso é retórica. Os limites a que se referem no máximo dizem respeito ao álcool que ingerem no final de semana e a toda a noitada. Não tenho nada contra, mas deveríamos saber o que é isso de limites e viver a vida ao máximo. Eu trabalho até ao limite e sei que não é bom. Quanto a viver a vida ao máximo não me queixo mas não creio que seja máximo nem o que pode significar máximo, tendo em consideração que o desejo agora posso não desejar mais adiante ou desejar mais. E mais do que viver um dia de cada vez, dado a sua carga conformista, eu digo apenas que luto e mantenho a esperança. Sem querer fazer o balanço do ano, 2018 foi um ano de boas conquistas mas também dessa luta intensa. De novas amizades e renovação das anteriores. De novos lugares e conhecimentos. Tudo isso e muito mais, mas sempre na ideia de acrescentar e não de chegar no cimo do monte. Aprendo cada dia, sobretudo integrado numa cultura e história que não são a nossa. É parte dessa aprendizagem que depois levo aos alunos, mas também aprendo com eles. Geralmente perguntam-me se conheço a praia A ou B. Posso também conhecer, mas a minha prioridade é conhecer lugares com alma, não apenas os do circuito sol e praia. Não me acho diferente das pessoas sobre o perfil falei inicialmente. Todos temos os nossos vazios e necessidade de identificação com algo, não quero é que esse seja o estatuto dominante.

Dia Internacional das Migrações

por José, em 18.12.18

Hoje celebra-se o Dia Internacional das Migrações. Em Portugal deveríamos saber bem o que significa e fazer do momento um reencontro e uma festa. Infelizmente tem vozes que, primeiro, confundem migrações com refugiados, segundo, na sua dignidade o trabalhador migrante e o refugiado são iguais e qualquer um de nós na vida poderá ter de viver uma das situações. Eu nunca pensei sair de Portugal, ainda que toda a família tenha feito a sua vida em França, Alemanha e outros países. Mas a vida gera necessidades e desafios, que deveremos seguir na medida do possível. Nem tudo são rosas, nem todas noites são tranquilas, mas por vezes permanecer não acrescenta nada ao que somos. Existem momentos dificeis, sim existem. O receio da doença, da insegurança, de algum azar. A inquietação da distância e a impossibilidade de se estar presente junto de familiares e amigos do lado de lá. Existem também coisas boas. Novos mundos trazem novos amigos e novas experiências. Não realizei o amor, mas tenho feito coisas que em Portugal seria difícil, não só pela ausência de oportunidades mas pelo facto de estarem em parte com destinos definidos. A sociedade portuguesa é muito defensiva no que toca a manter privilégios e comendas. O problema não é ideológicos, atravessa todas as ideologias. Mas é claro que a competição por um lugar é maior, falando em questões profissionais. Ao dizer isto até parece que por aqui é tudo fácil. Não é. Sempre trabalhei muito ao longo da vida. Agora trabalho mais. Viajo mais, mas a dedicação ao trabalho é mais. Um pouco na lógica dos mais "antigos" de sem trabalho nada vem.

A morte não escolhe hora

por José, em 18.12.18

A morte não escolhe hora, nem estatuto social, nem glória ou vício. Chega e apanha todos de surpresa, como que a dizer "para ti e para vocês chega, guardem as preces para outra existência", se é que algum dia existimos. Leva a simplicidade e a dedicação, como furacão que chega e some. Faz estragos e deixa danos para reparar, não que as lágrimas e os soluços cheguem, a perda é sempre maior que o momento. A ausência prolonga-se por tempo indefinido, nesse mesmo tempo que é cura e adaptação. Temos remédio para tudo, mesmo para essa ausência, essa vinda que nunca mais acontece. O lugar na mesa desocupado, o olhar para o lado e apenas se ver vazio, o coração que bate apressado na esperança que não acontece.

A distância não diminui a dor da perda

por José, em 17.12.18

As más notícias chegam depressa e no mundo de comunicações globais chegam quase em simultâneo a todos os lugares, não depende da rede mas dos nódulos da rede, ou seja, de alguém em qualquer ponto do globo que recebe a informação e a divulga. Fiquei a saber esta noite que faleceu um primo meu, creio que em terceiro grau, mas família é família e perda é perda seja até de alguém estranho. Este meu primo tinha os seus problemas de adaptação mas era boa pessoa. Era uma pessoa simples, algumas vezes desmotivada, mas com algumas ideias interessantes, cada vez que nos cruzavamos tentava algum tipo de incentivo para colocar as ideias em prática. Tinha o sonho de ajudar a organizar uma peça de teatro na aldeia. Existem boas infra-estruturas e já foram feitas algumas iniciativa. Tentei ajudar, pesquisei algumas peças que se poderiam ajustar, se necessário poderia escrever uma peça, sempre lhe disse. Talvez fosse o nosso segredo e não falou com as pessoas mais directamente envolvidas nestas iniciativas ou não o quisessem ouvir. Sei que outros amigos o ajudavam e bastante, talvez fosse necessário pouco para concretizar esse sonho. Realizou os seus sonhos o mundo das colectividades, tanto na aldeia como no clube de futebol do município. Era como a sua casa e acredito que como dirigente ou colaborador ajudou e influenciou muitos jovens. A minha vinda para o Brasil não permitiu dar o mesmo acompanhamento, mas não deixei de estar presente. Antes disso já tinha agravado os problemas de obesidade, o que com o risco familiar de diabetes e toda a desmotivação quanto ao futuro podem ter levado a este desfecho. Não sei neste momento o motivo da morte, sei pelo testemunho de outros familiares e amigos que ontem estava tudo bem com ele e foi uma coisa súbita, ao ponto de gerar grande alvoroço do INEM pelas ruas. Não sei o que todos nós poderíamos fazer para reverter este fim trágico. Espero que para onde vá encontre a sua paz e a felicidade que nem sempre conseguiu alcançar. 

O algodão também engana

por José, em 12.12.18

As energias ditas alternativas e por vezes ditas limpas também têm impacto no meio ambiente, nas pessoas e na economia. São a prova que o algodão também engana. No Brasil, estados como o Rio Grande do Norte  (actualmente o maior produtor), o Ceará e a Bahia são os que mais apostam em energia eólica, por vezes com impacto na paisagem, no solo, na saúde e modo de vida das populações. Pior de tudo é que pouco fica do grupo e pouco ou nada beneficiam as comunidades. O exemplo da foto representa uma mudança de paradigma, pois um município teve a ousadia de rejeitar as propostas federais e das empresas fazendo prevalecer a decisão próprio. Refiro-me a São Miguel do Gostoso, cuja prefeitura afastou as torres 2km da linha de costa para não afectar o turismo. 

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O capitalismo e o Pai Natal

por José, em 09.12.18

Vivemos um dilema quanto ao Pai Natal e as razões são óbvias. Colonizou a cultura Ocidental património, segundo os crentes, do Menino Jesus, mas nos tempos que correm vale mais acreditar no que representa do que em políticos e por generalização nas palavras e carácter de algumas pessoas. A chamada Coca-colonização tem no barbudo gordo e vermelho o seu ícone. A par disso o mistério de Natal, realizado através do nascimento de Cristo, transformou-se no que a comunicação social gosta de tratar como a magia de Natal, sempre com muitas prendas e uma festividade dita da família. A partir daí apresenta jantares de ricos e pobres, momentos de ternura e solidariedade, sem esquecer a gastronomia e o percurso pelas ruas vazias. Não tenho nada contra essa narrativa, mas Natal não é apenas isso. Disse em outros contextos que a fogueira de Natal representa uma outra dimensão da festa não apenas familiar, mas da comunidade, uma dimensão pagã ligada à chegada do Inverno e, ao mesmo tempo, um ritual de iniciação dos jovens para entrada na vida adulta, já que outrora os pinheiros eram roubados por estes jovens. Apesar das mudanças e das histórias que contam às crianças talvez seja de facto melhor acreditar nesta ilusão que acreditar em pessoas reais. A confiança interpessoal e institucional vive momentos dificeis, talvez seja melhor ficar-se pelo sonho.

É a crise ou existem razões estruturais?

por José, em 09.12.18

Ontem fui dar uma volta para área turística de Natal para ir comprando algumas lembranças para quem sempre me ajudou. O panorama no comércio de bens para turistas é profundamente desolador e deveria ser motivo de reflexão. Da parte que me toca queixo-me sempre da dificuldade em encontrar algo verdadeiramente natalense ou pelo menos potiguar ou sertanejo. O que se vende como artesanato local, tirando raríssimas excepções nada tem que caractetize a região. Por um lado, tem de facto artesanato mas é daquele que se encontra em qualquer lugar, tal como bonecas, amuletos e coisas do género. Por outro, tem artesanato de proveniência muito duvidosa e que pode ser de produção industrial. Todas as lojas vendem baianas, nada contra, mas a venda em massa deixa dúvidas. A sra que me atendeu ontem diz que são feitas em Recife. Pode até ser, dada a tradição de oficinas de cerâmica, mas o que é um facto é que o Nordeste representado por Natal e pelo Rio Grande do Norte não tem aqueles elementos. No caso são mulheres negras com os belos vestidos e penteados da Bahia. Este Nordeste é o da seca. A minha desconfiança não é sem motivo. Vi algumas peças da China. Não é caso único, pois no aeroporto de Lima, no Peru, acontece o mesmo. Essa falta de elementos simbólicos tradicionais pode justificar o menor número de turistas, mas não justificam tudo. Lembro que alguns turistas ficam no hotel por causa da insegurança e restaurantes como o Mangai vendem produtos tradicionais, alguns bem interessantes. Seria talvez interessante alargar a reflexão à questão do aeroporto. O afastamento do aeroporto da base aérea de Parnamirim para o longínquo São Gonçalo do Amarante pode estar a ajudar. O número de passageiros pode até aumentar, mas quem está em São Gonçalo não é necessariamente atraído para Natal, tem Pipa a Sul e várias outras praias, assim como São Miguel do Gostoso e Galinhos a Norte. Natal não é uma cidade atractiva para turistas. Além das compras não é uma cidade para andar a pé, não tem nenhum circuito do património e como disse tem o problema da insegurança. Tem restaurantes que vale a pena ir, pelo menos isso. E apesar do imenso calor dos últimos dias, na verdade humidade do ar, tem um clima maravilhoso e as praias da cidade e arredores são uma prenda da natureza.

Andam as epistemologias do Sul desnorteadas?

por José, em 09.12.18

A América do Sul está em convulsão com a viragem à direita, naquilo que mais parece um baile, em que numa década reina a esquerda e na seguinte a direita, quase quase o que se passa em Portugal mas um pouco mais de inimizades. Com tanta produção literária e científica que consolidam a identidade de todos estes países acabam por ser as ideologias de fora a dominar. O maldito capitalismo e o maldito socialismo vivem no seu território de eleição, ainda que os temas colocados em debate pertençam ao tempo da mãe ou mesmo dos antepassados da outra senhora. É incrível que todas as explicações vão dar ao mesmo. Qualquer política de apoio social e de garantia de liberdades leva a direita a dizer que é política da esquerdalha (em Portugal os comentadores de notícias online querem posicionar-se da mesma forma). Do mesmo modo, qualquer mexida por exemplo no equivalente à nossa Segurança Social leva a esquerda a dizer raios e coriscos. O caso da Segurança Social é particularmente interessante, pois tem muito funcionário público na América do Sul com melhores condições de reumuneração e reforma que qualquer outro em qualquer parte do mundo. Esta polarização chega por vezes a aspectos que não têm nada a ver. Recentemente falavamos sobre os sem-abrigo e alguém se lembra de dizer que são o resultado do capitalismo. Não entrei em grandes discussões, mas relembrei que, no mínimo, a questão dos indigentes já existia na Idade Média. O capitalismo mudou  provavelmente o perfil destas pessoas, mas é bom lembrar que sempre existiram desigualdades sociais, a sociedade sempre foi bastante estratificada, desde logo com clero, nobreza, casa real e o povão que tinha algo e o povão que nada tinha e que não poderia sequer entrar na cidade muralhada. Todo esse debate do acesso à cidade ou aos serviços que a cidade pode oferecer tem aí a sua origem.

Em adultos deixamos de ser tímidos?

por José, em 07.12.18

Convidaram-me para na próxima semana ir falar na televisão universitária. Obviamente não é a primeira vez que me convidam para outras iniciativas, ainda que seja a primeira vez que vá ao estúdio da televisão, no mês passado pensei que era uma pequena entrevista vieram meia dúzia de pessoas, entre jornalista e técnicos. Apesar do aparato são coisas muito locais e não tenho pretensões em ter muita exposição. A ciência precisa de visibilidade para mostrar o seu trabalho e dar opinião, mas o cientista não é vedeta, excepto alguns casos, com poucos interessantes. Seja como for, sempre gostei de moderação ou mesmo de ficar no meu canto. Em criança e na juventude era mesmo bastante tímido, a vida mostra que a timidez não pode persistir em alguns momentos da vida, sobretudo quando queremos e lutamos por algo deveremos usar isso como elemento de confiança. Sempre fui um ser muito introspectivo e isso por vezes também tem as suas interpretações, inclusivamente do próprio. Felizmente que sempre foi deixando algumas sementes pelos lugares onde passei, essencialmente de amizade, o que é sempre bom. O que nos fortalece não é a chegada a qualquer lugar, é saber que várias pessoas nos acompanham.

O Natal é a expressão máxima do machismo

por José, em 05.12.18

Podem discordar ou achar que estou louco, mas o Natal é a expressão máxima do machismo em termos da simbologia de origem. Maria é a única mulher e tem uma função meramente instrumental. As figuras que dominam são Jesus, Deus, São José e os Reis Magos ou seja, homens. Não quero questionar a fé de ninguém, mas não custa nada para um pouco para pensar.  Sendo que a partir daqui que a igreja estabeleceu as suas regras e hierarquias. É feita por homens brancos e pretensamente iluminados, não pela ciência mas pela pretensa fé. A excepção são os jesuitas que juntam fé e ciência.

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