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Crónica potiguar

A implosão da parcimónia

por José, em 28.02.19

Existem vários estudos sobre velocidade e mundo contemporâneo. Sem aprofundar estou a lembrar-me, por exemplo, de Flussser e na fotografia, mas tem muitos e bons autores sobre o tema. Essa velocidade não é apenas a de correr de um lado para o outro, de circular na auto-estrada ou algo desse género, mas chega igualmente ao nosso entendimento das coisas e à transformação de prática e valores. Sendo que, como diz o povo, "depressa e bem não tem quem!". Na perspectiva comercial poderia dizer que as pessoas, obviamente da classe média, procuram bom e barato. Nessa transversalidade altera-se a forma como vemos o mundo, que tantas vezes é global mas acaba por se restringir às escalas trabalho, casa, supermercado, shopping e pouco mais. As rotinas não matam necessariamente as tradições, mas consolidam novos valores. Um desses valores é a chamada parcimónia, ou seja, a capacidade de esperar, a moderação e controle. Exemplo disso é que chegamos a uma fila de supermercado ou repartição pública e vem alguém que mal acaba de chegar já está a perguntar/desabafar "isto não anda?!". A velocidade é irmã gémea da impaciência, a qual depois tem laços de proximidade com várias doenças. Por vezes saber esperar é uma arte. Geralmente, quando vou a um evento ou encontro gosto de chegar antes. Não o faço apenas por cortesia, mas por diplomacia, uma vez que espero que a outra pessoa siga o mesmo princípio, isto na expectativa de vir com o tempo a corrigir o atraso com base nessa influência. Não aprecio os argumentos tradicionais, explícitos ou implícitos, para justificar o atraso. O melhor exemplo é o da noiva do altar, que acaba por legitimar qualquer pequeno atraso das mulheres. Não tenho nada contra a questão de género, o mesmo se passa sendo homens com base em categorias como chefia profissional. Fica dificil a história do trabalhar para um mundo melhor quando temos falhas dessas e que, como refiro, têm influência na forma como agimos e interpretamos o mundo. Já referi aqui várias vezes a questão do típico atraso brasileiro. Para um europeu (ou brasileiro pontual pois também existem) isso gera impaciência e é falta de respeito, ou sejam vamos ter atritos dispensáveis e valores em choque. Se deixo que essa prática se consolide é mais complicado ainda. Se o atraso for consagrado, ou seja, se marcar algo para as 8horas e souber que na melhor das hipóteses será às 9horas tudo se vai alterar, não só a paciência mas igualmente a confiança no outro.

Cuidado com o sonho europeu

por José, em 28.02.19

Li mais uma notícia de um brasileiro que morreu em Portugal naquele que seria o final do sonho europeu e que subitamente não correu bem. Nessa sequência acabo por ver mais notícias idênticas, aliás, semelhantes em contextos migratórios de pessoas que partem à procura de uma vida melhor e que vão geralmente por sugestão de alguém, que em muitos casos desaparece. Quando me falam nessa possibilidade e pedem sugestões chamo a atenção para o facto de nem tudo serem rosas. Lisboa e o Porto são cidades caras, logo complicadas para ter uma vida digna, e nem sempre o esperado emprego está à espera. Sem esquecer o clima e a racionalidade europeia, mas que no conjunto são pormenores. É necessário que a pessoa tenha a certeza que vai ter emprego, de preferência que tenha alguém de confiança que more em Portugal ou outro país que seja de acolhimento. O emprego e um lugar para ficar são um bom ponto de partida, depois é necessário verificar se não é nenhuma rede com esquemas e coisas. O mundo está cheio de gente boa mas é a gente ruim que se encontra por todo lado. Muitas destas pessoas largam tudo que têm mas não têm experiência internacional, por vezes nem nacional. Sendo que para ganharem algo mais se sujeitam a trabalhar mais ou eventualmente a fazer coisas pouco dignas. Não são caminhos fáceis. Escrevo a pensar nos brasileiros mas o mesmo se pode dizer dos portugueses pelo mundo, sobre os quais são conhecidos alguns episódios. Pela parte que me toca adaptei-me bem por aqui por já conhecer e ter amigos de confiança, mas como sabemos tem várias situações. 

A violência doméstica resolve-se desde o berço

por José, em 28.02.19

A violência doméstica resolve-se também em casa e desde o berço. A ideia que é um problema de justiça e agravamento da pena não soluciona o problema, é preciso actuar a montante e a jusante. A jusante na reeducação dos criminosos, o que tem sido feito é insuficiente. E a montante no que é de competência educativa das famílias. Quando uma família educa um filho para assumir somente papéis de homem e mulheres para estarem ao serviço dos homens está a fomentar a possibilidade de tornar invisível o papel da mulher e possíveis formas de violência. No Brasil é possível ver relatos de violência sobre rapazes pelo facto de estarem a realizar tarefas aparentemente femininas, por exemplo, lavar a louça, se o patamar é esse o papel da mulher fica diminuído e a cultura do machismo tende a assumir-se como dominante. Como agravante tem depois a pressão do grupo de pertença em afirmações como: um homem não chora, homem é que termina relação, homem que é homem 'pega' toda a mulher, caso contrário é maricas. Infelizmente não faltam expressoes de associação entre papéis e sexualidade. Assim fica difícil e pensamos que falha a política pública quando na verdade temos também responsabilidade, mas também as escolas e igrejas e todo grupo de solidariedade primária e secundária. Não adianta culparem a gerigonça ou os governos de direita pois nós como sociedade também estamos a falhar. 

Tudo é judicializado

por José, em 25.02.19

No Brasil é a loucura, tudo é judicializado, ou seja, tem recurso à justiça. Seja uma vírgula, 1 minuto de atraso, 1 metro ou um peido, tudo pode seguir esse caminho. Na ausência de entidades que façam regulação ou fiscalização é uma espécie de fim último do cidadão, que pois pode atrasar tudo. Falei recentemente do atraso na perspectiva da não pontualidade, assim ocorre, mas numa qualquer formalidade se tem atraso dá problema, pois esta é a terra da burocracia. Deixa para lá quando convém e formalistas pois a norma ABNT xpto diz que deve ser assim e assim terá de ser. Infelizmente o problema nem é esse, mas do que se escuta do olhar vesgo da justiça, que também existe em Portugal. Por outro lado, nesse rol de burocracia tem a justiça estadual e federal, referindo-me a juízes, mas a procudoria geral e o ministério público têm um papel fundamental na representação do cidadão, sendo igualmente estaduais ou federais. Ou seja, um mal não vem só, judicialização e burocracia é complicado.

Se o Partido Democrata é comunista eu sou marciano

por José, em 24.02.19

Anda tudo doido. Agora dizem que o pré candidato americano Bernie Sanders, do Partido Democrata é comunista. O facto de se opor ao Partido Republicano não faz dos democratas comunistas. Nem entendo bem o regresso destas categorias, o único sistema existente de momento é capitalista, tudo mais é para legitimar poderes. Dá para entender que existe uma tentativa de fazer da Venezuela o símbolo desse comunismo, o problema é que Maduro não passa de um ditadorzeco e o candidato da oposição uma figura de estilo imposta internacionalmente. A tal da comunidade internacional é uma fantochada. Quem não se lembra dos massacres na China e do debate sobre direitos humanos. Foi tudo esquecido e o maior país comunista é afinal a sede do capitalismo global. Não acredito que a atracção que a Venezuela gera seja apenas devido ao petróleo. Creio mesmo que é uma tentativa de impor uma nova Guerra Fria. Existem obviamente interesses comerciais ligados ao petróleo, mas tem muita lavagem cerebral na propagada e tentativa de domínio geo-estratégico por parte de algumas corporações. Não sou adepto da teoria da conspiração mas tem coisa nisso. O problema é que quem se lixa é o pequenino. Tanta falta de respeito pela dignidade humana e nós ficamos quietos à espera do alinhamento esquerda ou direita. Uma vida humana não tem lado, a prioridade deveria ser a sua protecção.

Não tem posr-it é destaque

por José, em 24.02.19

De tempos a tempos os pequenos relatos que partilho são destaque nos blogs do Sapo. Assim acontece com o post em que descrevo a ida ao supermercado e sobretudo a conversa na hora de pagar em que me foi perguntado se encontrei tudo o que procurava e eu respondi que não achei post-it. Foi um pequeno episódio das grandes diferenças culturais entre Portugal e o Brasil ou em concreto o Nordeste brasileiro.  Longe de mim fazer piada com a história, tenho o maior respeito por este povo seja qual for o lugar de classe que ocupe. Natal, a capital do estado potiguar, é palco de muitas diferenças e elementos culturais. A elite do estado tem casa em Nova Iorque ou Berlim. A classe média vai para o shopping. Mas 70% da população não se conseguem aproximar desses padrões. Até na forma de organização no supermercado se nota bem a segmentação da sociedade potiguar. Abaixo "do" caixa tem os embaladores. Cada caixa tem uma pessoa que regista e outra coloca no saco. É como os garis na limpeza urbana, mas mesmo o equivalente a varredor tem hierarquicamente alguém abaixo. Quem não tem vínculo e segue a via informal. Poderia estratificar mais mas não adianta. Existe uma longa caminhada a percorrer. A educação formal não resolve tudo.

Postas de pescada

por José, em 23.02.19

Em política pública e na política partidária tem duas palavras fabulosas em português para descrever o regabofe (outra palavra interessante). Uma delas eu próprio usei no meu doutoramento, é o chamado ziguezague das políticas. Ou seja, a falta de continuidade das políticas quando muda o governo e igualmente quando muda o titular do carne, pois a nossa política não é de consensos mínimos, tem de ser cunhada por cada governante que ocupa determinado cargo. Em síntese, não tem um bom ziguezague sem uma boa personalização da política que deveria ser pública. Mas atenção que esse não é o único problema. A cereja no topo do bolo é o efeito ping pong. Ou seja, cada vez que algum partido assume o poder tudo de errado foi o governo anterior que fez. Esse efeito tem contraindicações e causa problemas de memória em governantes, oposição e eleitores e segue por toda a legislatura. Isso aconteceu com Passos Coelho, que passou de carrasco a esperança, enquanto António Costa passou de esperança a carrasco. Vocês decidam-se, pois o problema não são nomes ou figuras, mas estas e outras questões estruturais. Temos uma óptima tradição de treinadores de bancada, mas na hora de lutar por mais e melhores políticas públicas não largamos a TV ou tasco da esquina. Sendo que a luta por mais e melhores políticas não se faz necessariamente na rua, mas em fóruns de discussão. Muitos protestos não propõem nada, apenas lançam postas de pescada.

Não acredito que apenas na Igreja sejam ocultados crimes sexuais

por José, em 23.02.19

Não acredito que somente a igreja tenha ocultado abusos sexuais. A diferença é que a igreja deveria ser o guia espiritual e fonte de valores. O celibato e o sacerdócio masculino são elementos a ter em conta. Infelizmente não vamos ter mudança nenhuma quanto a isso. Mesmo como não crente depositava esperança no papa Francisco, mas vejo-o actualmente a gerir assuntos correntes. A intervenção no caso dos abusos deve-se mais à exposição externa do problema e a conflitos internos na igreja que à sua iniciativa. Estas decisões de expulsar abusadores não significam nada. Não são preventivas e não dão um sinal claro para a sociedade que estamos perante um crime punível pelos tribunais comuns. Pouco importa o rumo interno dos processos. São crimes e ponto final. Não se tratam entre portas, a não ser que se pretendam ocultar. Mas como digo não acredito que o problema esteja apenas na igreja. Tem muita ocultação em meios militares e nas escolas, só para citar outras possibilidades. Sem punição severa dos criminosos este drama não vai parar. Infelizmente a reacção da igreja tem influência noutros casos, faz arrastar os processos até ao esquecimento sem ser punido o criminoso. Sem esquecer o efeito Casa Pia, em que o crime é interpretado com base no mérito social do criminoso.

Fico sem paciência

por José, em 23.02.19

Talvez seja da idade, mas eu que até sou uma pessoa tranquila por vezes fico sem paciência para algumas coisas e pessoas e acabo por ficar no meu canto. Geralmente sou prático nas coisas da vida, talvez nas relações nem tanto, mas se tenho algo para o qual é necessário uma solução ou deixo se não for urgente ou veja como poderá ser resolvida. Não sei tudo e nem sempre é fácil. Além disso morar só leva em momentos de maior atribulação a adiar. Chato mesmo é quando dependemos de alguém. Nos últimos dias estou com a pequena decisão a tomar mas não depende apenas de mim não vou avançar sozinho. Explico às pessoas opções, já tínhamos praticamente avançado mas na hora do orçamento bla bla tem mais barato pedimos também a outra empresa. Assim foi! Mas depois ficam a olhar para mim. Explico que são produtos diferentes e que o grupo decide. Ou escolhe mais qualidade e confiança apesar de menos quantidade ou escolhe quantidade e a incerteza de ter algum pagamento extra não mencionado. Explico e volto a explicar. Ah podemos falar sobre não sei o quê bla bla. Levo com calma, mas uns meros 15 minutos de decisão leva semanas para avançar. O que me inquieta é que poderia ter avançado como uma proposta apenas minha mas achei interessante fazer primeiro a componente em grupo. Vou respirar fundo e aguardar. Se perco a paciência com algumas amizades a coisa complica.

Venezuela não é de esquerda nem de direita, é ditadura

por José, em 22.02.19

Na Venezuela, subitamente vários países e vários partidos alinham com o actual presidente e com o autoproclamado, contando apoios de lado a lado e posicionando ideoogicamente cada um deles. Não creio que o país seja de esquerda ou de direita ou coisa nenhuma. É uma ditadura de um tipo que não tem qualquer jeito nem para ditador mas que se agarrou ao poder e não o quer largar. O candidato da oposição bom ou mau não foge à regra, é um candidato artificial projectado por pressão externa. Espero que o país consiga ter paz, mas as coisas não estão bem encaminhadas neste momento. O exercício da política deixou de ser algo nobre para ser algo exercido por seres que querem poder sem que tenham forma de o saber usar de forma justa e digna. Não adianta alinhar de um lado ou de outro ou até ao centro, vai tudo dar ao mesmo. É preciso conferir prestígio à política e isso passa em primeiro lugar, não necessariamente ou exclusivamente por bons candidatos mas por bons cidadãos que não largem o pé de que exerce cargos públicos. Insistir nessa polarização só serve para uma coisa - para manter velhos senhores no poder na lógica do agora governas tu e lá para a frente governo eu. O cidadão habituou-se, por um lado, a ter alguém que decida por ele, é bom ter a papinha toda. Por outro lado, se "cair algum" para ele a maioria não dirá que não quer. 

As más notícias correm rápido

por José, em 22.02.19

As tecnologias de comunicação têm um duplo lado que tanto nos aproxima como nos inquieta. Permite a ligação em direto para matar saudades e acompanhar até o dia-a-dia, por vezes restabelecendo velhas amizades, mas também permite saber o que de menos bom acontece. Durante o almoço (hora daqui) fiquei a saber de um problema com uma pessoa muito próxima e fiquei a par dos primeiros encaminhamentos. Espero que não tenha sido mais que um susto, mas ficamos sempre preocupados. Claro que é fundamental tambéme esse acompanhamento em outras horas. Não sei se algum dia vou chegar a idoso (ou velho se quiserem, não vejo qualquer problema nessa classificação), mas espero não ser tão teimoso. tem gerações que pensam que vão durar sempre e fazem coisas que depois correm mal. Quando surgem os primeiros sinais de cansaço, quedas, perda de memória e muitos outros sinais deveríamos ter um botão de alerta para se parar. É díficil para quem teve uma vida sempre muito activa, mas ninguém é de ferro e dura sempre. Para quem está distante é mais que uma preocupação, é ficar com o coração nas mãos e o olhar perdido. Os nossos familiares e amigos são o nosso mais importante património, tudo mais são coisas mundanas. 

Não tem post-it

por José, em 22.02.19

No supermercado cá do sítio, que estando no Nordeste se chama Nordestão por ser uma rede (ainda) de empresários cá da região, é hábito na caixa perguntarem se procurei algum produto e não achei. Pois bem, ontem procurei post-it e não achei. Estava a organizar uma actividade para as aulas da noite e precisava de alguns e como tal aproveitei a ida ao supermercado e tentei comprar lá mesmo, pois já o tinha feito. Tem uma loja que vende quase tudo de papelaria e para a casa mas fica do lado contrário, além disso os produtos para a casa não são necessariamente alimentares, mas louças, roupas e tudo mais. Por conseguinte, como queria levar igualmente uma fruta para o lanche fui ao supermercado. Na área de papelaria, que por sinal mudou de corredor e ainda não acertaram os nomes, perguntei a uma assistente. Sei que temos diferenças de língua, mas como não vi nada na prateleira não insisti. Quando a pessoa da caixa me pergunta se não achei algum produto disse "Sim, não achei post-it". A pessoa não teve resposta, não entendi se não me tinha entendido ou se a pergunta mágica quanto ao não achei o que procurava é uma forma de tratamento para com os clientes mas depois não têm um protocolo de actuação. Tentei abrasileirar mas reconheço que é uma coisa tão pequena que somente quem usa ou tem familiares que usam conhece. Não vamos pensar à portuguesa e fazer juízos sobre as pessoas, é feio e errado. A média de escolaridade dos trabalhadores não é comparável com o caso português, devemos respeitar. O supermercado é que deveria ter alguma forma de dar sequência ao meu estranho pedido. Eventualmente ter alguém da secção que possa ir buscar ao armazém ou então dizer que não tem. A questão da língua é importante. Apesar do produto indicar post-it poderá ter algum outro nome que não sei e na hora muito menos me lembrei. Ia dizer adesivo, mas adesivo aqui é o nossoa autocolante, descrevi como era, mas não deu certo.  Só depois me lembrei que vendem (obiviamente) na livraria/papelaria da universidade, mas acabei por não me preocupar muito. Tinha alguns e não me preocupei muito. Pelo sim pelo não levei para a aula um conjunto ligeiramente mais pequeno, chegaram perfeitamente.

Pagas e não bufas

por José, em 21.02.19

Recentemente a Caixa Geral de Depósitos revelou que voltou aos lucros, uma notícia de hoje dá conta que o lucro do BCP dispara 65,1%. São de facto boas notícias, o problema é que nenhum desse dinheiro chega a nós. Quando tiveram prejuízo a despesa foi nossa e não foi pouca, o país e os portugueses viveram acontecimentos pouco simpáticos, cuja nuvem ainda paira. Agora estão todos satisfeitos com o lucro e com uma certa ideia de regulação, que na verdade não existe, nada mudou, o que mudou e deu origem a grandes lucros foi o facto de cobrarem até o papel higiénico dos funcionários. Se estão a gerir melhor não fazem mais que a obrigação, de resto tudo vai como ia. a começar pelo governador do Banco de Portugal que se mantém e sobre o qual recaiem suspeitas a vários níveis. Este tipo de instituições funcionam como um poder paralelo, mas quando se sentem aflitos ai que "Deus me ajude!". E lá vamos nós terrenos e pecadores dar uma valente esmola a estes tipos.

A língua inglesa é efectivamente rainha de alguma coisa?

por José, em 20.02.19

Partilhei recentemente as últimas publicações numa das plataforma mais usadas para o efeito. Não me dei conta que pedi que os autores na área se pronunciassem e acabei por ter mais visitas. Neste caso eram capítulos em português publicações em actas de congressos e tive reacções de cientistas de língua portuguesa, mas também de vários países, até pelo facto do resumo  das actas estar em inglês. Porém, se tivesse escrito tudo em inglês, mesmo a dizer pouca coisa teria feito enorme sucesso. Uma das pessoas enviou-me mensagem na qual dizia simpaticamente que não entendia espanhol. Não desfiz a convicção do senhor de que se tratava realmente de espanhol, apenas agadecia e disse que em breve publicaria um avanço do que foi apresentado numa revista internacional em língua inglesa, pelo menos assim espero. Sei que a língua inglesa é a língua franca da ciência, mas se a comunidade científica lusófona não se une qualquer dia não produzimos nada em português. É óbvio que faz todo sentido publicar em inglês, os principais "pares' seguem o nosso trabalho se assim for, mas abdicar-se da nossa língua é muito mau. Seria bom ter cientistas destes nossos países num diálogo na nossa língua e sobre temas que provavelmente até são comuns, trocando experiências e fortalecendo a articulação em rede. Assim é um pouco o ditado "nem o pai morre nem nós jantamos". Alguns autores conseguem sucesso internacional, mas quando se trata de chegar aos colegas do departamento do lado ou universidade do lado não conseguem dialogar. As redes somos nós que fazemos, mas um incentivozinho ajudaria. Digo isto e acabo por estar ligado a tanta coisa que não sobra tempo para mim, mas esta vida é um pouco assim, tem muita entrega.

Mais um ex-companheiro que partiu

por José, em 19.02.19

Recebi esta manhã a notícia da partida de um ex-companheiro de trabalho e durante algum tempo também meu vizinho e amigo se algum tivesse algum problema. Durante cerca de 8 anos tivemos uma óptima relação, depois a vida levou cada um para seu lado. Primeiro ele casou, depois eu deixei a actividade. Guardo alguns amigos desse tempo, já passaram quase 20 anos. Já fiz muita coisa na vida e por onde passei deixei alguns amigos. Na verdade não deixei, pois continuam. As redes sociais ajudaram a restabelecer alguns desses contactos. Não sei os contornos, sei que teria cerca de 50 anos e sempre teve problemas com arritmia e falta de ar. A dado momento fumava muito, não sei se deixou. Nestas situações questionamos a nossa luta, mas também a existência de valores distorcidos mas também a própria ideia de existência de Deus ou Deuses, pois tamanha a injustiça nos vários acontecimentos da vida. Não sou crente, mas aceito as opções de cada um e por vezes chego-me a questionar, não sobre as crenças, mas sobre o papel da fé e da Igreja na sociedade e na vida de cada um. Tenho sempre muitas dúvidas, mas acabo por concluir que a Bíblia foi uma das mais importantes obras humanas, pois conduziu meia civilização ao este ponto. Pode não estar a dar a resposta cabal mas crentes e não crentes chegámos aqui com essa indicação moral. Apesar dessas palavras tal não significa que Deus sequer exista, estamos a falar de coisas diferentes. Por vezes tenho muitas dúvidas nas próprias palavras que inclui, entre elas a ideia de Criação e a forma subtil de exacerbo do papel masculino, sem falar em valores que devem ser gerais e se confundem com a fé. Ainda assim, tal como refiro, não nego a influência da obra e da mensagem, não deixo de me questionar, mais ainda em momentos de perda como esta, em que apesar do afastamento tivemos uma história que se cruzou e ele teria a sua família. Sei que casou com uma colega e tiveram filhos, para quem a perda e ausência será maior.

Pontualidade brasileira

por José, em 19.02.19

A pontualidade brasileira é algo complicado para a maioria. Tinha combinado uma reunião virtual com colegas portugueses e liguei-me 1 min depois e fiquei obviamente preocupado pois gosto de no mínimo ser pontual. 1 minuto não foi nada, até pelo facto de geralmente se usar a expressão 15 minutos académicos, mas online em diferentes fusos horários pode complicar. No Brasil se marcamos para as 9horas existe a pseudo-suposição que é para as 10horas. Sendo que 1hora de atraso em alguns eventos não é nada. Tem casos de pontualidade, mas o normal é no mínimo as pessoas chegarem 30 a 45 minutos depois. Isso acontece na esfera profissional pois se combinamos ir ao café pode a espera ultrapassar a tal 1 hora. Dizem que é uma questão cultural, mas nem todas as tradições são boas. Por vezes causa transtorno, é certamente uma falta de respeito e como tal o jeito é mudar. Tenho amizades super pontuais e outras cruzes canhoto. O primeiro evento no qual participei que foi mega pontual em nem queria acreditar. Foi um militar a coordenar, mas penso que não deve chegar a tanto, deve partir de cada um.

A doença mental não é pera doce

por José, em 17.02.19

Nos últimos meses uma das pessoas amigas dessas que falamos com frequência viu-se confrontada com a doença de alguém familiar, pouco importam esses laços e pormenores, o que importa é que geralmente menosprezamos o outro ou atiramos para a gaveta dos estereótipos, quando cada um sabe de si e dos seus dramas. Em termos de proximidade será talvez o terceiro ou quarto caso mais próximo, conheci obviamente outros, mas não o vivi com tanta proximidade. Na minha adolescência tinha um amigo na aldeia do lado que ainda muito jovem acabou por se suicidar. Não lembro bem os contornos, eu teria 13 anos e ele um pouco menos, na altura as amizades eram retomadas com o retomar das aulas, dificilmente se conseguia manter contacto frequente com amigos de outras aldeias, excepto um encontro casual na vila ou lugar de festa. As formas de contacto não eram as mesmas e férias escolar significava trabalho no campo. Creio que esse amigo tinha perdido a mãe anos antes e o pai seguiu com a vida, não imaginei que fosse esse o destino que o esperava. De casos públicos que conheci de perto mas com menor proximidade lembro de alguns. Lembro-me de um caso na universidade, talvez por volta de 1994 ou 1995, a pessoa tinha uma situação familiar pouco favorável e não aguentou, cometeu suicídio. Existiu uma tentativa interna de ajudar a pessoa, mas as universidades não tinham serviços preparados para o efeito, a ajuda chegou tarde. Falei algumas vezes com a pessoa, quando estava bem e depois, pelo que me revoltou e obviamente foi triste ver uma pessoa tão jovem e cheia de sonhos partir. Muitos anos depois fiquei a saber que o irmão de um amigo escolheu o mesmo caminho. Espero que não seja o caso com a pessoa a que me referi inicialmente, sei que não é nada fácil. Por vezes é dificil encontrar a ajuda certa, que nem sempre é um profissional de saúde, as medicinas alternativas, a arte e o desporto podem ajudar, mas não fazem milagres. Não adiante fazer uso do argumento clássico, segundo o qual a pessoa está louca, pois não sabemos o dia de amanhã. É fácil sair-se da nossa aparente normalidade para uma situação dessas. Todas as pessoas que referi eram ditas normais, mas viveram episódios que as levaram a perder o encanto pela vida. O fim do amor, a relação profissional, expectativas elevadas, são alguns dos motivos. Pior de tudo é que nem sempre detectamos e pode ser tarde a ajuda e as pessoas já não a pretendam. Precisamos estar atentos, mas com moderação, mas não é fácil.

A intolerância é por vezes invisível

por José, em 16.02.19

A intolerância nem sempre tem como ser medida, pois tem contornos invisíveis associados aos padrões culturais. Racismo, machismo ou intolerância religiosa são disse exemplo. No caso do racismo existem muitos exemplos geralmente no debate sobre integração de minorias e que pode ter contornos de xenofobia, o que não deixa de ser espantoso no caso português pois o país já foi imperialista e já viu sair muitos dos seus para trabalharem no estrangeiro. O machismo tem igualmente muitos exemplos. Tenho visto palavras de ordem no sentido da mulher não tolerar determinados avanços do homem mas isso não chega, é necessário actuar ao nível educativo e dos valores. Tem mães, irmãs, familiares e amigas que incentivam ao machismo. É necessário desconstruir a ideia que o homem só é homem se não se rebaixar "e pegar o maior número de mulheres". A religiões são por norma intolerantes, consolidaram na disputa e na guerra. Procuram ser coesas internamente mas não toleram quem pense o contrário.

Dia dos namorados e eu com o negócio fechado

por José, em 14.02.19

Isto de morar distante e onde por acaso e por lógica o dia dos namorados é dia de Santo António não ajuda. Razão pela qual a loja hoje está fechada. Agradeço que procurem oferta melhor pois por esta lado o coração tem chaves guardadas e não tem funcionários de serviço. Na verdade com todos esses constrangimentos o dia é apenas mais um que ontem. A manhã acorda com algum sol após as grandes chuvas da última noite. Mas não é por isso que o negócio está fechado. A abertura a sentimentos não escolhe momento mas tal não significa disponibilidade imediata e a qualquer proposta. Na verdade escondi a entrada principal do negócio para evitar procura, sou péssimo vendedor de atributos e desejos. O mesmo se passa com sonhos. Dou ao desbarato a alegria de pensar mas vendo caro a vontade de sentir. Pelo sim pelo não vou decorar a montra. Pois neste dia tem mais quem procure coisas insólitas.

Os banhos dos brasileiros

por José, em 13.02.19

Pelo menos nos últimos 20 anos venho a adicionar amigos brasileiros e de várias geografias do país. Um aspecto guardam em comum e estranham ao chegar a Portugal ou a conviver com portugueses: acham que não somos muito dados à higiene, à semelhança da leitura que fazemos dos franceses, que não se lavam e usam muito perfume. Porém, tal observação não significa claramente que andamos sujos, revela é diferentes práticas quanto à higiene do corpo. A humanidade do ar impõe a necessidade de mais banhos/duches, pois apesar do nosso verão ser muito quente em diversas regiões, por exemplo o Nordeste, a humanidade é tanta que mesmo depois do banho estar a "escorrer água". É um tipo de transpiração diferente no odor mas não deixa de causar embaraço. Lembrando que tal acontece com temperaturas que rondam 25 a 32, mas com 13h de Sol, que mal nasce fica a pique e facilmente leva a 27 graus pelas 5 a 6horas da manhã. Tudo isso leva a mais banhos, mas no litoral, pois no interior o clima é semiárido e facilmente as temperaturas ultrapassam 45 graus grande parte do ano. Aí "lascou", fica complicado ter água até para lavar a cara e para o esgoto.

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