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Crónica potiguar

Preciso é de desolipar

por José, em 30.04.19

Ando tão cansado e, por consequência, a pensar na vida, que preciso é de dar um passeiozinho, ou como se diz em Portugal, preciso de desopilar. Este semestre quase não sai daqui e quando vou a qualquer lado é em trabalho. Preciso mudar isso aí. Felizmente já conheço vários lugares, não são necessariamente todas as grandes cidades, mas existe vida em muitos lugares. Esta foto tem cerca de 2 anos, foi tirada na praia de Lucena, a poucos quilómetros de João Pessoa, no estado da Paraíba. Tive vários convites para voltar mas a disponibilidade não tem permitido, mas qualquer dia lá estarei.

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A xenofobia com piada?

por José, em 30.04.19

O episódio na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa revela o quanto alguns grupos acham que mandam nisto e tudo o que fazem tem piada. Mostram que não têm ética para estar numa Universidade como a de Lisboa, mas acham que agiram bem, pois tudo foi em brincadeira. O racismo e xenofobia com piada tem as suas nuances, só não tem piada. Infelizmente não é caso único, veja-se o exemplo do carro alegórico na Queima das Fitas de Coimbra a gozar com o Holocausto. Não creio que o problema tenha a ver com os basileiros, embora sejam os visados, é acima de tudo o nariz empinado de alguns betinhos que julgam ter piada. Além da falta de imaginação é algo muito triste. Esperamos que os brasileiros sejam tratados em Portugal como iguais, assim como os portugueses no Brasil. Veremos se é um caso isolado ou se essa brincadeira de mau gosto corre o risco de se replicar, pois tudo o que é ruim cresce e multiplica-se. Para que tal não aconteça só a condenação na praça pública e nas instância oficiais reverte situações desta natureza. Veremos se não vai ficar tudo em águas de bacalhau, parece o mais provável.

Para além da conjuntura

por José, em 30.04.19

O momento que o Brasil vive actualmente é muito complicado. Não tem a ver com questões de ideologia, mas com propostas que promovam a continuidade das políticas, sabendo-se que quando entra novo inqilino muda tudo, o que tem custos imediatos e no longo prazo, geralmente agravados pelo facto do inquilino seguinte fazer o mesmo e assim sucessivamente. Mais do que desmanchar é preciso um projecto, o que também implica a oposição, que vive totalmente apagada, só se alimenta nas redes sociais com mensagens contrárias à governação. Ou seja, faltam propostas de parte e a parte e assim a coisa complica. Não adiante esperar a queda e nada, os ciclos são o que são e o voto foi do povo. Sei que teve excepções, mas isso é outra conversa. O que temos presente é uma articulação que resulta da actual conjuntura, a qual não vai mudar no curto prazo. Talvez se deva pensar para além da conjuntura para se analisar o que necessita mudar não apenas nas práticas mas nos valores. Devido à herança histórica centralista e mobilizadora do Estado (neste caso é da União, mas também se usa o termo Estado na sua forma genérica e não por referência a um estado em concreto), o emprego é sobretudo público e a economia apresenta as fragilidades de um tecido empresarial fragmentado e incapaz de dar resposta às necessidades internas. O estado sempre foi o principal investidor e assim vai continuar. O problema é que se vai individar para investir e nem sempre as obras ou outras infraestruturas e equipamentos têm o uso para o qual se destinam. Tem um outro ponto ligado a este que nos leva às aspirações das pessoas. O objetivo de muitas delas é ganhar um concurso público federal, assim está o futuro garantido. Até as entendo, pois com a economia e o tecido empresarial tal como referi tudo fica mais difícil. Por outro lado, ao nível dos estados e municípios as coisa não está boa. O problema é que essa lógica geral pouca motivação nas pessoas, querer arranjar um lugar à sombra não ajuda na competitividade nem na realização pessoal. Com tanta tensão por vezes penso que esse deve ser o meu caminho. Os anos passam e em Portugal não tenho qualquer alternativa. Ainda assim não deixo de me sentir cansado para isso e, paradoxalmente, inseguro quanto a essa possibilidade. Em Portugal trabalhamos menos com a ideia de futuro, aqui tudo se inverte, o que me deixa ainda mais preocupado. Logo eu que ainda sonho e gostaria de fazer outras coisas mais. Mas mesmo em Portugal os funcionários públicos têm uma forma de encarar o dia-a-dia muito na base da reforma, mas entraram já contam os anos que faltam.

O fim da sociologia e filosofia ou o fim da memória e reflexividade

por José, em 29.04.19

É intenso o debate face à possibilidade do governo acabar com sociologia e filosofia. Na verdade só consegue ter menor visibilidade na discussão política que a rejeição do turismo em busca de parceir@s do mesmo sexo. Vários estados do Nordeste vieram a público dizer que os turistas são bem vindos mas não a oferta de mulheres para sexo. O que revela a intensidade da discussão. O mesmo tem sucedido quanto a manter sociologia e filosofia. Acredito que essas áreas seja só um começo. Já se fala em história, provavelmente antropologia vai no mesmo caminho. Não vou comentar a disputa ideológica, mas vejo tudo isso com preocupação. Primeiro, em particular filosofia está na base da sociedade democrática e reflexiva. Segundo, sociologia não é apenas debate ideológico, é uma ferramenta de diagnóstico, intervenção e análise da sociedade, mas também uma proposta metodológica d conceptual para o fazer. Sem o trabalho dessas disciplinas não se dá transformação nem se implementam boas políticas e se formam cidadãos mais capacitados. Sei que no Brasil por vezes o cientista se confunde com cidadão com a dita consciência política, mas esse é outro problema. Os departamentos aprovam as ementas e propostas bibliográficas. Podem sugerir outras leituras adicionais sem colocar em causa determinada disciplina. Existem formas de atenuar isso e promover a pluralidade. Acabar com essas áreas é interferir nos conteúdos programáticos. A decisão também é ou é sobretudo dos alunos. Se o professor debate o autor X devem ir à procura do Y e Z. Receio que a ideologia de parte a parte dívida mais o país e o esteja a bloquear. Vimos em Portugal a fusão de vários serviços no início da crise. Não voltam a ser os mesmos.

Deveria dedicar-me à política

por José, em 29.04.19

Estou como diz o outro, para ter futuro profissional garantido deevria dedicar-me à política. E quem diz futuro profissional diz reforma, pois um não vem sem o outro. A opção seria arrnjar uma senhora rica, não importa a idade e a beleza. O meu problema é que gosto de trabalhar e não abdico da autonomia do pensamento e da acção, ou seja, assim fica complicado. Nunca fui de fazer parte de grupos políticos, religiosos ou outros, ainda que integre associações profissionais e tenha sido co-fundador de uma pequena associação regional. Sempre que acho importante dou o meu contributo, mas não no sentido de daí obter vantagem. Na prática não ganho nada com isso, pois como diz o povo "quem não está na política não mama". Infelizmente essa prática é igual em todo lado. De nada me servem títulos académicos, livros ou artigos, se quem manda consegue controlar tudo. No Brasil o ciclo político é bem marado, pois quem não é concursado, geralmente os funcionários públicos federais, tem como eventual hipótese um cargo comissionado se para tal fizer panelinha com algum político nas diversas escalas de poder. Em Portugal isso não é dito dessa forma, mas está entre os tais cargos de confiança e os boys for the jobs. Estamos a falar do mesmo. Tenho esse meu problema, se não tenho paciência para as pessoas, mesmo a beber cerveja, quer é estar no meu canto. Detesto ser pendura, para mais num pendurar que ger desvantagens a outras pessoas e me obriga a dobrar os joelhos. Falo falo mas um dia vou querer uma reforma ou deixo de conseguir trabalhar e logo me lixo, mas a vida é assim mesmo.

As instituições auto-protegem-se

por José, em 29.04.19

É incrível como em todo lado as instituições, através dos membros com vínculo efectivo, se auto-protegem nas mais variadíssimas questões, sendo que as universidades não estão fora disso, dão um péssimo exemplo, na medida em que defendem mecanismos de democracia representativa e governança mas na hora da verdade o discurso só serve para os outros. Infelizmente não é apenas em Portugal ou no Brasil. Por vezes tem a ver com as amizades geradas, outras com a defesa pura e simples do grupo numa espécie de concertação tácita e negociação. Em Portugal um dos exemplos que sempre me afectou foi a questão das orientações de alunos. A instituição tinha algumas particularidades, mas mesmo assim isso não justifica a exclusão de quem por vezes até ajudava no trabalho desses alunos. Tem muito lugar que ainda vive na ideia do tradicional professor catedrático e não dá oportunidades às pessoas do próprio grupo de investigação. Isto parece um pormenor, mas na hora de qualquer candidatura é uma das componentes a ser avaliada. Na última viagem deparei-me como outra situação que me deixou sem palavras. Colaboro com um projecto que envolve outros colegas, que na prática não tem um coordenador designado, é a equipa. A pessoa com vínculo afectivo falou comigo de forma diplomática a queixar-se da posição do nome num artigo apresentado num congresso. Que merecia estar primeiro que determinada pessoa. Fiquei sem palavras pois, pese o facto de ser uma pessoa experiente, não entendeu que o que se faz em muitos lugares pelo mundo fora e colocar o nome da pessoa que coordena no final, de modo a dar oportunidade aos restantes membros. No caso, como disse, não tem coordenador nomeado, pois é um trabalho de um grupo de pessoas interessadas no tema, mas na altura quis destacar a pessoa em causa. Sobre a auto-protecção das instituições já vi muita coisa nos dois hemisférios, não vejo grande diferença entre as práticas, sendo que por vezes o esforço nem uma linha de currículo proporciona, é apenas por um orgulho vazio.

Os paasos e as sombras

por José, em 29.04.19

O amor já não serve e a saudade já não cura. Corro atrás dos sonhos, mas também a mim me faltam as forças. O estado das coisas muda cada dia, com portas abertas e fechadas, o que importa é o caminho e a perseverança. Mas nem toda beleza encanta tanto quanto os gestos. O pior erro é o da omnipresença, deambulamos muito pelas noites, sem que os corpos as cruzem ou a lua se projete no olhar. Tem muitas incertezas em fuga e muitos solitários velados na formatura. O silêncio é apenas um labirinto de reflexões. A distância é como alimento rico em proteínas. Podemos substituir uma fonte por outra mas não resolvemos o presente. O que é genúino alimenta e tem preço. As aparências são como os domingos pela manhã. A liberdade é apenas um reencontro. A rotina da chegada e do abraço. Talvez sem o suspiro e o movimento. As pessoas já não se cruzam, apenas eeguem fronteiras e exalam alianças. Tanto caminho vazio que perdemos o Norte, o que fica são os passos e a sombra.

Este ano está a ser mais difícil

por José, em 28.04.19

Também pela situação incerta do rumo do Brasil ou sobretudo devido a essa incerteza, este ano está a ser particularmente difícil no sentido do degaste pessoal. Não tenho esmorecido, tenho ido à luta, mas talvez por isso tenho momentos de muito cansaço ou apenas em que me questiono sobre o que faço. Tem sido uma experiência para a vida, tive oportunidades aqui que não teria em Portugal, até pelo facto do empreg científico ser precário e estar entregue a algumas famílias. Mas isso não significa que quero permanecer aqui para todo sempre, a não ser que consiga vínculo, mas não é fácil ser concurseiro. Se pensar em estabilidade seria o ideal, mas viver o desafio de um outro contexto ou país era muito interessante. Regressar para Portugal preferia de momento não o fazer. Adoro o meu país, mas além das razões referidas motiva-me conhecer mais e regressar apenas em visita. Ideias tenho muitas, mas os anos passam e seria bom ter algo concreto. S tivesse saído de Portugal uns anos antes a minha vida seria outra, fiz algum currículo mas isso não garante autonomia nem paga as contas.

O imoral prescinde ou não prescinde

por José, em 27.04.19

Cada vez se fala mais em transparência dos processos, o que não passa apenas por divulgação de informação. No Brasil os portais de informação divulgam informação tão técnica que o cidadão dito normal e por vezes até o mais habilitado tem dificuldade em compreender. Ou seja, sem descodificação de informação para diferentes públicos não existe transparência. Vem isto a propósito de uma notícia sobre os alunos matriculados em Religião e moral divulgada esta semana. Não é a notícia em si mas da artimanha usada no passado. Segundo o Jornal de Notícias do dia 20 são menos de 1/5 do total de alunos inscritos. Quem não se lembra da pergunta a perguntar se prescindia ou não da disciplina? Agora tudo parece fácil, mas no final da década de 1970 e início de 1980, em contexto de inferioridade, nem todos entendiam e acabavam por dizer sim quando queriam dizer não. Só me inscrevi no primeiro ano do Ciclo Preparatório, pois pensava que fazia parte da oferta curricular normal, e mais tarde por lapso meu. Não se trata de ter algo contra a disciplina, que no caso era leccionada pelo padre, mas por serem esferas diferentes e isso na altura já me fazia confusão. A ideia era ser dirigida no que agora se diz Educação Cívica ou Cidadania, mas na verdade era quase catequese. Cidadania é absolutamente central, o que não acontece com Religião e Moral. Para nós era dose, pois tínhamos igualmente as actividades da igreja. O que quis salientar foi como essa falta de descodificação tinha um efeito no entendimento. Não creio que a escolha da palavra fosse inocente. Poderiam simplesmente perguntar se se queria inscrever na disciplina.

Não tem redução das desigualdades sociais sem protecção do meio ambiente

por José, em 26.04.19

Digam o que disserem e não necessitam ser pró-ambientalistas ou pró-ruralistas, ou pró ou contra seja o que for, sem a protecção do meio ambiente vão persistir e mesmo aumentar as desigualdades, seja qual for a geografia e escala. Assim sem mais pode parecer estranha esta relação, mas é uma aparente estranheza, pois a protecção do ambiente associa geralmente a exploração da terra e dos recursos em baixa densidade. O principal exemplo é o da agricultura familiar, que no Brasil produz 70-75% dos alimentos consumidos. A noção de familiar não é bem como e entendemos dada a dimensão do país, não tem uma dimensão fixa, pode atingir 200 hectares. É o princípio é que conta: propriedade da família com trabalhadores na sua maioria da família, pouco mais tem. Ainda que tradicionalmente a pequena produção também não tenha sido amiga do ambiente, as orientações da política de agricultura familiar acabam por colocar regras ambientais. Mas quem falam em agricultura pode falar de sal, pesca, extracção de madeira, etc etc. As pequenas e médias empresas são geralmente menos danosas, sendo que estão instaladas num contexto local ou nacional, pelo que o benefício é dessa escala. As grandes empresas sabemos como acontece: recebem benefícios, empregam mão-de-obra local desqualificada e barata, o objectivo é o lucro e não os valores locais. Etc., Etc., não faltam argumentos. Sem esquecer que ao incentivar-se os pequenos negócios ou a pequena produção local estamos a contribuir para a fixação das pessoas em áreas não urbanas e a evitar que aumentem o contigente de pessoas à procura de emprego ou mesmo de sem-abrigo. 

Esperamos muito das pessoas?

por José, em 26.04.19

Questiono-me por vezes se não esperamos muito das outras pessoas, geralmente a pensar que estão alinhadas com o que pretendemos, mas na verdade estão preocupadas com o interesse individual e outra coisa não seria de esperar. Não sou diferente da maioria mas geralmente não sou de grandes solicitações, os amigos sabem quando preciso de algo e nessa altura se pronunciam. Convém relembrar que gosto de ter o meu pequeno mundo, pois isto de se viver só alguns anitos, nem digo quantos, leva-nos a viver noutro planeta sem sair desta. Mas uma coisa não tem necessariamente a ver com a outra. Sei com quem posso contar e quem quiser sabe que pode contar comigo. Esta semana no quebra-gelo de uma acção de formação, aqui dita de capacitação, dizia isso, geralmente não digo que não a nada/ninguém, o problema é dar conta de tanta coisa, mas tenho conseguido, mas não é fácil. Refiro-me a amizades e situações desafiantes, outras loucuras ficam fora dessa leitura, já me chegam as minhas próprias loucuras. Claro que sei que nesse intuito de busca do interesse individual as pessoas se aproximam e afastam. Necessitamos aprender a lidar com esses fluxos, não digo rejeitar e achar que as pessoas são meras interesseiras, é verdade que tem muitas, mas outras agem de acordo com a sua vida e forma de estar. Como diz o povo é preciso algum "jogo de cintura". O melhor é levar de forma tranquila, se alguém nos tira do sério pode ser um critério de exclusão. Não somos diferentes dos outros, por isso não adianta dizer raios e coriscos de ninguém. A felicidade não está em cobrar mas em articular tudo isso e receber o apreço das pessoas, tudo mais é vento que passa.

Descontentes com a democracia ou a ignorância da ditadura?

por José, em 25.04.19

Já hoje falei do tema e não é novidade, celebramos 45 anos da Revolução dos Cravos, o que gera alguns consensos, mas também permite que os descontentes com a vida se expressem. A democracia é isso mesmo, as pessoas podem dizer o que pensam, ainda que algumas pessoas ignorem o que é essa conquista. Creio que as tais comunidades epistémicas do qual falava ontem, que de epistémicas não têm muito, por vezes é mero linguarejar, gostam de dizer coisas contra a democracia e a favor da ditadura. Primeiro, talvez seja bom distinguir ditadura (mesmo assumindo o Estado Novo como ditadura) da figura do Presidente do Conselho. Não se iludam, os senhor tinha as qualidades que tinha, mas esse facto histórico não se repete. O mundo mudou, qualquer regime não democrático seria ainda mais opressor e não necessariamente preocupado com o desenvolvimento do país. Segundo, as pessoas criticam mas falam de boca cheia. Conheço pessoas que só não dão vontade de rir, pois são mais novas, já estão reformadas e ainda se queixam do regime. Sem esquecer que tudo que conseguiram se deve à democracia. Nem tudo tem corrido bem? Certamente que não. Um dos problemas em Portugal é levar as pessoas a envolverem-se com a vida pública, assim é mais fácil permanecerem como treinadores de bancada, escondem-se atrás de certos comentários, mas quando chamados a dar opinião sobre o que mudar na sua rua fecham-se dentro de casa e não fazem barulho. Alguns aparecem, mas pelo facto do assunto ser a rua na entrada da sua casa. A insatisfação pessoal com a vida não nos deve levar a condenar o regime. Ok, o país tem sido prejudicado por políticos corruptos, mas que eu saiba muitos deles até conseguem ser eleitos apesar de declarados publicamente como tal. O problema está nos maus políticos? Sim e não. Os políticos emanam da sociedade e ela é os elege, logo, também está nos maus cidadãos. É a velha frase atribuída a Ramanho Eanes, segundo a qual o 25 de Abril deu liberdade mas esqueceu-se de criar os cidadãos. É bom interpretar aqui o cidadão não apenas ocmo homem ou mulher, mas como pessoa activa e interessada na causa pública. Para exigir a maioria dos portugueses "está por aí", mas na hora de ir para além dos deveres formais, de fazer parte dos processos, são sempre os mesmos que aparecem.

Onde estavas no 25 de Abril? Estava a crescer

por José, em 25.04.19

Em resposta à famosa pergunta onde estavas no 25 de Abril de 1974 só poderei responder que estava a crescer. Era muito jovem, na verdade criança. Morava no Portugal profundo, onde as notícias chegavam com atraso, só pelo bate boca, geralmente bem cedo na mercearia, ou pela rádio. Com a idade não entendia o que estava a suceder, mas rapidamente fui dando conta das mudanças. Lembro de ir a casa de uma vizinha ver televisão e ver os presos políticos saírem em liberdade. Lembro das músicas que depois a rádio repetia e íamos cantando na rua. Na altura havia os cesteiros, lembro de um grupo que pouco tempo depois passou uns dias na terra a empalhar (na verdade era com vime) garrafões de vinho e cantavam umas músicas da revolução mas de forma tímida. Ali não era o Alentejo e cedo se percebeu que os poucos comunistas seriam identificados. Felizmente isso durou pouco. Lembro sobretudo das reuniões do MFA e depois de alguns partidos. A aldeia era pequena mas tinha instalações para fazer estas reuniões e o povo da região ia. Todos queriam ssber mais sobre o futuro. As pessoas eram desligadas da política, queriam era saber o futuro. Eu lá ia também, era tudo mais do que novidade. Parece que tinha acabado de nascer. Pese embora qualquer ideologia, durante o PREC (processo revolucionário em curso) Portugal implementou uma dinâmica diálogo com a população. O problema é que na base diziam uma coisa e no topo seguiam outra, faltava de facto um projecto para o país e liderança não militar. Digam o que disserem, também não gosto de corrupção, mas o país desenvolveu-se muito desses esses tempos. Tem muito a corrigir, sobretudo na transparência, combate às desigualdades e assimetrias regionais, mas os passos dados foram gigantes. Qualquer saudosismo é de quem perdeu algo ou quer ganhar, sobretudo poder simbólico.

Comunidades epistėmicas em linha

por José, em 25.04.19

Pergunto-me frequentemente se os comentadores das noticias dos jornais online e na edição partilhada no Facebook constituem comunidades epistėmicas ou se são apenas i) agitadores; ii) viciados na ofensa iii) ou pessoas com o rei na barriga? Estou sobretudo a pensar em jornais de economia mas também o Sol e o Observador. O Sol é uma lástima. É um verdadeiro chat para dependentes na má língua. Quando apareceu a internet e depois as redes sociais todos tínhamos as melhores opiniões, era de facto um mundo novo. O problema é que o feitiço parece saber mais que o mágico e o lixo toma conta dos debates. Por vezes comento algumas notícias, mas se passar uma semana ou um mês sem comentar o mundo gira na mesma. Esse povo é sempre o mesmo e nem sequer comenta os conteúdos. A internet precisa mais que moderação, que ajudava, precisa de manual de boas práticas e capacitação. Nem aprofundo o debate sobre os conteúdos. É muitas vezes propaganda com ódio a tudo o que não é de direita (isso é efeito muda, quando mudar o governo inverte).

O meu primeiro disco

por José, em 24.04.19

A propósito da referência ao meu primeiro livro, no que agradeço ao Sapo Blogs mais um destaque, aproveito e refirmo o meu primeiro LP. Na verdade tinha já alguns discos, mas só nesse momento comprei a tal da aparelhagem, no que ganhei autonomia para escutar o que queria, até aqui eram coisas de família e uma ou outra dispersa. Na altura já escuta mais música alternativa, mas gostava de algumas coisas da Pop. Comprei também Cindy Lauper e mais uma ou outra coisa, depois comprei mais daquelas músicas que, segundo se dizia, "ninguém ouvia". Também não era tanto assim, adorava David Sylvian, Sakamoto, Virginia Astley, Laurie Anderson, etc etc. Mais uma vez a interioridade, mas nesse caso era superada pelo universo da rádio - bons tempos aqueles do Som da Frente com António Sérgio - e com o facto de algumas lojas fazerem importações directas, só quem viveu ensse tempo entende isso. As editoras bem queriam mas não controlavam tudo, pelo que as lojas importavam directamente. Os Correios funcionavam. Por outro lado, o surgimento do jornal Blitz constituía uma importante fonte de informação em redor do qual se juntava uma comunidade de apreciadores de música, na verdade eram duas comunidades principais - os surfistas e os vanguardistas. O rock também entrava mas o que agora é rock no momento poderia estar na vanguarda. Os metálicos existiam, algumas bandas como os AC/DC tinham muitos seguidores, mas o debate pelos gostos era essencialmente focado entre surfistas e vanguardistas. A dita vanguarda tinha várias expressões, no meu caso e de muitos foi marcada, por exemplo, pelos grupos da 4AD, mas também da Factory, entre outras editoras. Entre eles o Cocteau Twins, This Mortal Coil, Dead Cand Dance, etc. Os surfistas tinham como cabeça de cartaz os Duran Duran, que sempre foram óptimos, mas em termos de posicionamento estético pertenciam ao outro grupo.

O problema está em acreditar no amor ou ter confiança nas pessoas?

por José, em 24.04.19

Já expressei aqui o meu cepticismo relativamente ao amor, referindo-me à possibilidade de um dia encontrar alguém de quem goste de facto como se fosse a primeira vez. Faço notar que isso não tem obrigatoriamente implicações em vir a assumir uma relação e não me refiro a uma relação menos comprometida. Gostamos por vezes de muitas formas. Nem falo nas relações que existem sem que o amor seja o elo mais forte, existem outros laços de afecto que podem contribuir para fortalecer uma relação a dois. Por exemplo, o companheirismo e a cumplicidade. Refiro-me a amor no sentido da sonho e da literatura. Cometi uma vez o erro de dizer a uma pessoa que suponha amiga que gostava dela. Por vezes ainda bem que certas relações não dão certo, pois é nestes e outros casos que se conhecem as pessoas e um dos elos fortes é o da confiança e da linguagem. Tem muitas pessoas, mulheres ou homens, que preferem manter o sorriso e não tomar decisões, se necessários arrastam-nas,em certos casos para ter a outra parte na mão. Nesses casos o melhor mesmo é se fugir, essa pessoa nunca nos vai escolher, a não ser que tenha qualquer interesse particular. A confiança, a linguagem, a entrega, são os elementos básicos para se dar sequência a um sentimento se for mútuo. Não falo em relação, pois partimos do princípio que o sentimento antecede a relação, mas é um facto que são aí também a base. Não me acho propriamente desconfiado e não creio dar razões para desconfiarem de mim, mas isso não é linear. Já me disseram que eu era mulherengo sem ter por base factos, mas pela imagem as pessoas constroem o seu estereótipo. Não se trata aí de ter fama e não o proveito, mas de ter a fama e com essa fama alimentar a desconfiança da outra parte. Costumo dizer que sempre fui fiel nas minhas relações, o que é verdade. O problema está em avançar com uma relação perante o quadro geral de desconfiança entre as pessoas. Não se trata de estar escaldado com nada, é apenas um sinal dos tempos. Não é preconceito mas tudo isso no Brasil é ainda mais complicado, pois as pessoas falham nas pequenas coisas. Tem pessoas nas quais se pode confiar como em todo lado, mas se combinarem um encontro às 9 horas da manhã procurem ser pontuais e levem uma boa dose de paciência. Algumas pessoas são igualmente pontuais, mas se 1 ou 2 hora depois ainda estiverem a chegar pessoas não se admirem. Assim fica díficil avançar para pequenas coisas, pois falta essa base que fortalece as interacções.

Lembrei-me do Homem do adeus e da loucura humana

por José, em 23.04.19

Tive um outro blog, já não faço ideia quando, pois o tempo correu muito, mas talvez por volta de 15 anos, no qual escrevi sobre o Homem do adeus e a loucura humana. Não era uma metáfora, era real e a cada noite ia para o Saldanha dizer adeus a cada carro que passava. A comunicação social chegou a dar alguma atenção, não sei se ao Senhor se à liberdade ou à loucura que manifestava. Seria uma forma de expurgar fantasmas ou de ver os fantasmas a circular na cidade. Ficaram muitas perguntas em aberto com a sua morte. A Praça Duque de Saldanha, no coração de Lisboa, também ficou mais pobre. Parecia tão feliz aquele homem de sorriso fácil. Se era louco não transparecia, pois aquele era o momento dele brilhar e ser feliz. Por vezes precisamos de tão pouco para atingir a felicidade, ela não se importava com comentários, se apitava acenava com um olá e vai com Deus. Existe muita competição, muitas regras ditas morais baseadas ao conteúdos materiais, temos muitos S's quando precisamos de tão pouco. Talvez nos falte coragem, somos sempre tão submissos ou tão reis de coisa nenhuma. Sendo que não olhamos para nós, mas também evitamos olhar para esses exemplos. É tudo mediado e feito de fugas. Todos fugimos, também sou por vezes fugitivo, outras corre atrás.

É mais do que a história de um livro

por José, em 23.04.19

Em jeito de continuação do post anterior, O Principezinho é mais do que a história de um.livro. Estaríamos muito provavelmente em 1977 e morava na terra natal, uma pequena aldeia do centro de Portugal, onde a leitura não era estimulado e onde a caneta era uma enxada para cavar terra. O país mudou muito desde então. Eu também mudei mas não esqueci as minhas vivências. Lembro que na sequência do livro passei a assinar a revista das Selecções. Teria preferido Círculo de Leitores mas ninguém era sócio naquele momento. A revista era ruim, tinha alguns livros interessantes. Cheguei a fazer birra para comprar creio que o Atlas de Portugal. Gostava dos livros sobre doenças e conhecimento do corpo. Não segui mas na altura gostava de enfermagem. Convém dizer que nunca pensei em fazer Universidade, ainda que ler e investigar fosse já uma paixão. Por vezes encontrava um jornal com 10 anos e no fascínio só parava de ler na ultima letra. Não era apenas o fascínio da narrativa, era igualmente a obra prima humana em criar o jornal. Para uma criança sem os meios de comunicação de hoje isso tudo era fantástico. Não aprendi com ninguém, os meus avós mal sabiam assinar. Foi um conjunto de circunstâncias e a vontade e gosto.

A memória do primeiro livro é como do primeiro amor

por José, em 23.04.19

Hoje celebra-se o Dia Mundial do Livro e do Direito de Autor. Guardo na memória o meu primeiro livro, como se fosse o meu primeiro amor. Li certamente pequenas coisas antes, sobretudo livros aqui ditos de quadradinhos, mas o meu primeiro livro foi esse aí. Tudo se deve à minha professora de português no chamado Ciclo Preparatório, que no inicio do ano comprou vários livros e transformou a turma num clube leitura. Mas não foi só isso. Pagou inicialmente alguns livros, mas a ideia era cada aluno/sócio ser co-responsabilizado e integrado. A cada mês recebia a devolução da nossa contribuição, espero que tenha sido suficiente, pois no final os livros foram sorteados e cada um levou um para casa. Para alguns de nós era o início da nossa biblioteca. Lembro que em casa foram surgindo outros livros, mas a primeira relação direta com a leitura foi com O Principezinho. Nos meus cerca de 10/11 anos era um livro difícil de entender, mas li com a mesma vontade do princípio ao fim, com a mesma vontade que hoje o faço. Raramente desisti de um livro.

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A metáfora do ancinho que me foi ao focinho e o Dia da Terra

por José, em 22.04.19

A METÁFORA DO ANCINHO é fabulosa para explicar o afastamento/proximidade das pessoas da questão ambiental ou se quiserem da natureza. Conta o povo que alguém regressa à aldeia anos depois vindo da cidade. Após o afastamento a pessoa esquece o nome das tarefas e dos utensílios usados no campo. Um dos utensílios com o qual esbarra e erra sempre o nome é um ancinho, até que num momento, com ele mal arrumado, pisa as cavilhas e o ancinho dá meia volta e bate-lhe forte na cara. Nesse momento diz alto: raio do ancinho foi-me ao focinho. Creio que é mais metáfora que história, mas define saberes e urgências no cuidar. A proximidade dos problemas alerta para a necessidade de serem resolvidos (também os ajuda a resolver). O bater na cara aqui vai mais longe, que só actuamos com os problemas já avançados.

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