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Crónica potiguar

VDC - vai dar certo

por José, em 31.05.19

Adoro algumas expressões brasileiras, geralmente de exclamação, como oba! De incredulidade como vixe ou oxente, dependendo se o apelo é à virgem Maria, daí o diminuitivo vixe, ou se é da situação do povo, daí o nordestino oxente. Tem depois as bem correntes Sei, certo, tá certo, tá bom, entendi, etc. O pois é uma exclamação muito portuguesa, assim como o então. Uma expressão bem na moda é o VLC - vai dar certo. Perante tanta incerteza é uma crença descrente mas com tom de esperança. Não se usa em qualquer momento, apenas quando temos uma etapa da vida a ultrapassar. Do género: tenho muita coisa para estudar para esse exame mas vou luta e vai dar certo. Ou a vida está phoda mas vai dar certo. Acaba por ser igualmente uma narrativa que une, pois usa linguagem e códigos que todos entendem.

Adoro quando as pessoas dizem que odeiam mentira

por José, em 31.05.19

Por vezes fico estupefato com as pessoas, nem sei se realmente surpreendido, proclamam o discurso do ódio à mentira mas até parece que é por gostarem do ódio, pois pela mentira a maioria não é.  Sou tranquilo e nem quero saber do que pensam ou fazem, mas ficamos sem saber em quem confiar. A culpabilização do outro é uma estratégia usada para tudo. Vamos salvar o planeta? Vamos  mas que tenho eu a ver com a degradação? Estamos perante uma crise de valores? Estamos, mas lá em casa ensinamos respeito. Estou como diz o outro: PQP (puta que pariu) mas aginal quem tem a culpa? A crise é acima de tudo uma crise de solidariedade, em que a soberba, a arrogância e lavar de mãos são colocados acima da simplicidade e entreajuda. Assim fica difícil reverter este caminho para o fosso.

Esperança insurgente

por José, em 31.05.19

Muito se tem falado por aqui na necessidade de resistência. Construir deixou de ser a palavra de ordem, também se escuta pouco a palavra esperança, pois dizem que não se sabe o que aí vem. Resistir transformou-se para os brasileiros (parte deles) na palavra na ponta da língua. Ao mesmo tempo debatem-se utopias e recalcamentos. O debate das utopias vai para a esperança, projecta o futuro que nós queremos e são um mecanismo para relocalizar o país num contexto mais alargado. Talvez a problematização mereça atenção. Colocar o debate num contexto de neo-colonização não resolve o problema porque falha no seu amplo diagnóstico e situa o país e a América Latina no eixo do problema quando na verdade o problema é global e nele participam igualmente empresas brasileiras. Esse debate vai para além da questão ideológica e da política que está a ser implantada. Aliás, é bom lembrar que os governos anteriores usaram as questões sociais mas na prática foram profundamente neoliberais. O socialismo deles foi a utopia de alguns. Promoveram uma economia agrícola exportadora, favoreceram grandes grupos económicos, etc etc. A ideologia é usada para vender tremoço quando na verdade as pessoas estão a beber cerveja com espetinho mas a bandeira partidária e da alta finança diz que tremoço é bom e num laivo de pseudo modernidade são abandonados práticas tradicionais para o país virar moderno. A afirmação é uma metáfora, sendo que o tremoço nem faz parte da dieta alimentar, mas tem o camarão e outras propostas. O problema é mais grave ainda pelo facto de regressarem velhas formas de dominação ditas patriarcais e clientelares. Ou seja, fica pouco claro onde começa o estado e os interesses particulares, e nessa nebulosa são favorecidos alguns grupos que mantém laços de proximidade e sustentam o poder. Assim fica difícil. Precisamos analisar o problema no tempo longo e não apenas o momento actual, apesar da sua especificidade. São as condições dessa especificidade e o lugar do país na geopolítica que importa debater sem esquecer de apontar para o futuro.

Desperta o teu lado animal

por José, em 28.05.19

Não me surpreende o número de votos no PAN, não só pelas simpatias crescentes mas também pelo facto dos simpatizantes serem em geral pessoas de causa e quem é de causas não vota na abstenção. Não sei se votaria no partido, faz parte de novas narrativas ideologicamente indefinidas, também não sei se precisa definir-se, e que dificilmente submete uma proposta de governo. Não diverge de um modo geral de outras narrativas em vários espectros que apresentam palavras de ordem facilmente apropriadas, nessa caso mais ainda pois toca ao coração e questiona valores e práticas na relação homem-animais domésticos. Falta-lhe a visão da natureza, ainda que o nome esteja lá. O problema não é do PAN mas dos movimentos de defesa animal, que são óptimos na defesa dos animais mas não suscitam uma visão ecossistémica dos problemas. Até parece que a flora não deve ser igualmente protegida, mas mais do que isso, animais, plantas e elementos não existem de forma isolada, nem os homens igualmente. São espaços de interacção e reciprocidade. Se não cuido dos rios e da vegetação não posso salvar os animais. E mesmo nos animais precisamos acabar com atrocidades humanas mas precisamos também de soluções para os animais que vagueiam abandonados e são um risco para as pessoas. Sem esquecer que precisamos trazer para o debate o papel de outros animais. Agora só se fala em abelhas, mas tem mais. Por último, o problema de partidos desta natureza é que conseguem finalmente colocar alguns temas na agenda política mas esvaziam os movimentos sociais. Seguem a tendência "se tem sucessa bora lá transformar em partido". Os movimentos sociais geralmente são mais duradouros, os partidos fora do eixo de governação são mais incertos no futuro. Eu prefiro os movimentos sociais, mas cada um sabe de si.

No rescaldo de Cannes

por José, em 26.05.19

Nunca o cinema brasileiro esteve tão em alta no festival de cinema de Cannes. Mundialmente teve outros bons momentos, em Cannes foi a primeira vez e com dois filmes premiados, um deles, Bacurau, filmado no Rio Grande do Norte, a poucas centenas de quilómetros daqui. Podemos interpretar o momento em resultado da exposição política do país em termos Internacionais, não é a primeira vez que um prémio é mais político e menos pelas suas qualidades enquanto filme. Porém, não vamos esquecer a qualidade dos atores, atrizes, realizadores, produtores  e técnicos brasileiros. A maioria muito para além da aprendizagem da telenovela. Em particular o cinema feito no Nordeste tem ganho relevância e interesse do público. Parte desse impulso resulta da Internacionalização e outra parte muito importante da aprendizagem na universidade. Tudo mais é paisagem e cultura como traço da identidade regional. Ficaria feliz ver um filme português premiado, mas também fico feliz ver o Brasil. Portugal já teve excelentes momentos, mais tarde ou mais cedo surgirá mais um prémio. Não falei na temática de Bacurau mas insere-se na ideia do Brasil estar na boca do mundo e contribuiu por si só para a vitória. 

No rescaldo de Cannes

por José, em 26.05.19

Nunca o cinema brasileiro esteve tão em alta no festival de cinema de Cannes. Mundialmente teve outros bons momentos, em Cannes foi a primeira vez e com dois filmes premiados, um deles, Bacurau, filmado no Rio Grande do Norte, a poucas centenas de quilómetros daqui. Podemos interpretar o momento em resultado da exposição política do país em termos Internacionais, não é a primeira vez que um prémio é mais político e menos pelas suas qualidades enquanto filme. Porém, não vamos esquecer a qualidade dos atores, atrizes, realizadores, produtores  e técnicos brasileiros. A maioria muito para além da aprendizagem da telenovela. Em particular o cinema feito no Nordeste tem ganho relevância e interesse do público. Parte desse impulso resulta da Internacionalização e outra parte muito importante da aprendizagem na universidade. Tudo mais é paisagem e cultura como traço da identidade regional. Ficaria feliz ver um filme português premiado, mas também fico feliz ver o Brasil. Portugal já teve excelentes momentos, mais tarde ou mais cedo surgirá mais um prémio. 

O voto como dever cívico

por José, em 26.05.19

Explicar às pessoas durante as eleições que é um dever votarem é apostar que a votação é baixa. O voto é incentivado pela confiança nas instituições e nos políticos, quando tal não acontece lembra uma campanha de marketing, só compra o produto quem quer. Defendo que se deva sempre votar, quem discorda vota em branco, mas não deve abdicar de realizar o acto em si. Mas precisamos mudar muita coisa para que o voto seja um apelo junto das pessoas. Este não é certamente um problema português, não adianta criticar o partido A ou B. Está em discussão o que é a democracia e se o voto atrai o cidadão no sentido de aceitar que sem ele perde a democracia. Tudo isso é discutível. Os políticos são sofríveis, as propostas geralmente fracas e o voto tem sido usado para legitimar acções e lideranças poucos democráticas. Guardar a democracia para o momento do voto não gera empatia e o resultado é conhecido. Precisamos ampliar os momentos participativos e reduzir a instrumentalização partidária. Queremos mais cidadania e ao mesmo tempo os partidos exigem obediência, assim fica complicado. Pior fica com casos públicos de corrupção. É bom lembrar que os políticos são pessoas do povo, alguns nossos familiares e amigos. Se são corruptos o problema não está apenas nele, a corrupção está em todo lado e nós não faríamos muito diferente. É preciso intervir aí para credibilizar a política e reforçar a participação social. Bom voto.

Feliz Dia do Abraço

por José, em 22.05.19

Sou eu que acordo diariamente o galo da madrugada, tamanha a presença na noite e na narrativa. Ainda o sol se escondo conto os números que a memória deixa. Tem dias que vou de 0 a 100, tem outros que paro nos 400, depende da velocidade do sono e do encanto da Lua. Chego a perguntar-me como posso alimentar sentimentos se o destino é incerto. Mas também não ignoro a opção pela descoberta e pelo caminho que consolida a minha linha no tempo para a eternidade. Tenho dificuldade em resignar, em aceitar o óbvio por ser socialmente a normalidade. Não digo com isto que tenho resposta e que as busco. Estou certo que me deparei com algumas respostas, mas a vida também me ensinou a fazer perguntas. Hoje é o dia do abraço, posso questionar-me sobre a ausência ou sobre como louvar o que sinto, o que já vivi e inspirei, mas também sobre como melhorar a reciprocidade. Na aldeia como na vida já segui por caminhos sem vivalma. Talvez não fosse esse o meu objectivo. Mas dar vida a esses lugares e preenchimentos é algo que me motiva. Cumprir eu a minha parte para que esses espaços e hiatos se satisfaçam com o meu lugar enquanto gente que povoa e preenche e determine que eu também sou vivalma. Sei que é um desejo para além do entendimento de quem prefere seguir, mas como em tudo na vida alguns seguem e outros resistem. Não importa quem ganha ou quem perde.

Quatro estações

por José, em 22.05.19

A natureza brinda-nos com a mais perfeita sinfonia, que em última análise podemos dizer tratar-se das quatro estações, pois cada período do ano tem seu som peculiar, o seu movimento, cores e aromas. Apesar da ameaça das alterações climáticas e das transformações sociais, ambientais e económicas que em curso ou que venham a ocorrer. Tenho saudades dos passos e dos aromas, da invernia que enchia os lameiros de água corrente, onde meses anos se lançava a chamada "erva de semente", um tipo de feno de terrenos lamacentos que se usava para guardar seco para dar de comer aos animais na falta de outra comida verde e para não ser apenas palha seca, que obriga a dar mais água aos animais. Esta erva exige algum cuidado no corte, pois é necessário que o tempo esteja seco, mas sem deixar a erva secar muito, pois é necessário guardar a semente para a próxima campanha. Sinto igualmente saudades de ver a água a correr, do som das pequenas levadas e das rãs escondidas na erva. A Primavera muda parte do cenário, não só com as andorinhas, mas com os terrenos livres de água, mas com ervas que por vezes largam um cheiro pestilento, sem falar nos mosquitos, assim como das ninhadas de pequenos ratos, bem minúsculos, até belos. O verde luxuriante, o estalido dos pinheiros e das pinhas nos primeiros dias de calor completam, ou completavam uma sinfonia com acordes mas sem maestro e sem músicos. Sem pinheiros e outras árvores também esta composição se altera. Hoje é o Dia da Biodiversidade, o momento para repensar tudo isso e preparar o futuro. Do Verão guardo o sabor das sestas, mas também do cheiro do milho e da água do poço, das espigas caídas e depois assadas, do gosto da fruta acabada de colher, dos primeiros figos, dos abrunhos (ameixas para alguns), da cerejas, de todo esse brinde da natureza e de alegria das gentes do campo. Não esqueço o cheiro a madeira acabada de cortar, dos dias passados a recolher lenha para o inverno seguinte, da resina e dos resineiros, da aversão a répteis, da escassez de água, das madrugadas em que os vizinhos mal dormidos iam na fonte buscar água para casa e numa nascente para o jardim. Do Outono guardo o colorido, os aromas a campos, do aroma a vindima e figos secos, mas também guardo a saudade do sol estampado no paraíso. Tanto poderia dizer sobre as estações e sobre a vida que sempre as atravessou, podendo reviver alguns episódios. Apesar da exaltação não gosto de extremos de temperatura. O Inverno tinha/tem dias insuportáveis na apanha da azeitona, nos quais se aqueciam pedras para se aguentar um pouco mais as mãos quentes. O Verão tem o horror dos incêndios. Mesmo assim, em coisas boas e menos boas se encontra uma memória e uma permanência. Tem uma certa dose de nostalgia, mas é também ela relativa, pois o trabalho do campo é penoso e é aquilo mesmo sem mais nada. Mas mesmo nessa nostalgia existe uma paz que só os as estrelas entendam, pois vai para além do que se conta e deixa largar em palavras.

Sou da geração da paz e do conhecimento

por José, em 22.05.19

O título pode gerar enganos, mas refere-se à década de 1980 e a tudo o que representou do ponto de vista do desenvolvimento económico, socio-cultural, político e civilizacional. A década que vivemos é como se diz no Brasil uma bosta, mas 1980 representou muito para nós na altura adolescentes. Muitas transformações tiveram início na década anterior. O PREC deu lugar a abertura de Portugal à democracia depois de um vira para cá e um vira para lá. As rádios piratas, o regresso de muitos emigrantes, a Europa, o apertar do cinto, a televisão como agente de mudança, o rock português, são alguns momentos marcantes. Em termos pessoas cumpri 2 anos na Força Aérea, não descobri o mundo mas conheci p bem e o mal. Foi a década da emancipação da juventude e da vontade de alimentar o desejo com conhecimento. Foi a década da rádio de realizadores de programas alternativos, da música e da literatura. Haverá décadas semelhantes, mas basta ver as rádios existentes actualmente e o lugar da música da decada de 1980. Pouco mais se avançou no gosto e na inovação. Caiu o muro de Berlim, ainda que nem todos hoje tenham sido informados. O cinema mudou a ficção e o amor. Nós vivíamos contaminados de esperança. Nas vilas e aldeias era a transição europeia que transformava o país. 

O desacordo ortográfico

por José, em 21.05.19

Ainda não escrevi sobre o tema mas é sempre momento. Nunca manifestei simpatia pelo acordo ortográfico, ainda assim não vejo razões para não aceitar prquenas mudanças. Mas sou obviamente contra todo o acordo. Em primeiro lugar, pelo facto de ter pouco de acordo. Foi aceito pelos diferentes países de língua portuguesa mas na prática foi adoptado por Portugal. Dizer que o Brasil implementou o acordo teria piada, mas o caso não dá para rir. Não é comparável com o caso português, desde logo por falta de interesse das editoras e das instituições públicas e privadas. Em Portugal o processo avançou pois ficou claro que se trata de um negócio. Qualquer dia ficamos a saber que teve interesses obscuros. Quem ganhou foram as editoras e um segmento de professores de português que viu aí uma oportunidade. Quisemos mudar tudo e nem sempre de acordo com as regras da língua, mas o pior mesmo é o facto de ser um acordo político sem pedir o aval dos falantes da língua. Li uma notícia ontem em que uma professora dizia que se avançou e agora não temos forma de reverter a situação. Justificar com esses argumentos é algo que não faz sentido. Poderiam ser os argumentos para não implementar o acordo. Ninguém entende o motivo desta teimosia em manter algo unilateral e sem sentido. Não digam que agora todos escrevemos da mesma maneira. O problema não é de grafia mas de como portugueses e brasileiros constroem as frases. Podemos seguir dois caminhos: dizer a mais de 200 milhões de brasileiros que não entendem nada de gramática; respeitar a especificidade brasileira, que por sinal é a mais falada. Se esperam com isso colocar Portugal como o líder da renovação da língua estão a ser provincianos. Para tal nada melhor que cada um preservar a sua escrita. Uniformizar é a utopia de quem desconhece e pensa que tudo se decide com lápis e papel. Esse é um debate de e em Portugal, ou seja, perdem tempo com essa intenção de unificar. 

Nunca se falou tanto de abelhas

por José, em 20.05.19

Talvez em algo apenas comparável ao impacto da publicação do livro A primavera silenciosa, de Rachel Carson, nunca se falou tanto de abelhas. Para quem não lembra, o livro de Carson denunciava cientificamente os efeitos do uso do DDT nos ecossistemas e nas pessoas. Oficialmente proibido, o mais poderoso pesticida tem tido os seus herdeiros e não é coisa recente essa preocupação. Lembro-me de ter assistido a uma conferência em Lisboa com um especialista da Agência Europeia do Ambiente ainda na década 2000, não lembro o ano. O que é importante em tudo isso é que algumas pessoas finalmente que, como ecossistema, na natureza, mesmo na artificializada, tudo está ligado com tudo. As abelhas sempre foram admiradas pela forma de organização social mas o seu papel sempre foi mais falado que respeitado, agora estamos a sentir o efeito. A determinado momento virou moda as pessoas terem colmeias, lembro de existirem menos, apesar de existirem mais flores e arbustos. A família nuclear nunca teve colmeias, mas a minha avó sempre ajudou e sabia fazer de tudo, pelo que todos os anos lá ia eu com ela tratar das colmeias de uma prima. Foram vários anos até que um ano as abelhas se zangaram e foi uma loucura. Nesse ano foi também o meu irmão. Coitado, foi a primeira vez e a última. Na altura ninguém usava protecção, apenas alguns cuidados. O melhor deles era deitar quietinho no chão sem respirar. O problema é que ele não parava de se mexer. Abelhas e vespas deixam uma dor danada, pior mesmo só uma picada de lacrau, nesse caso eu tenho estágio completo, pois alguns terrenos mais secos são mais propícios. Mas o dia de hoje é das abelhas. Aqui no nordeste é uma das actividades tradicionais mais importantes. Parece mentira esta semelhança, mas não admira, pois o clima lembra o Alentejo no Verão. O sertão é sempre seco e escaldante. O litoral não, tem muita vegetação e chove muito. Mas o interior tem momentos que me lembra Portugal, a diferença é que tem rectas com mais de 20 kms e praticamente sem vegetação, apenas uma curva para mais 20 kms. Mas no meio de tudo isso o povo se adapta e produz o seu mel, geralmente muito bom.

Conservadores de esquerda e progressistas de direita

por José, em 20.05.19

O mundo deu uma cambalhota de tal género que vejo pessoas ditas de esquerda com posições conservadores face a alguns temas e pessoas ditas de direita com posições a que chamaria progressistas no sentido de não serem tradicionalmente características do seu posicionamento. Isto vai para além dos partidos, mas por vezes também os partidos, quando convém, assumem-se de um lado e do outro. Mas referia-me essencialmente às pessoas, que independentemente de terem ou lá simpatia ou filiação partidária têm em regra uma posição firmada sobre determinado tema/problema. Por exemplo, conheço uma pessoa dita ferrenha de esquerda que na questão do aborto é mais conservadora que os deputados do Alabama. No caso a pessoa é brasileira e no Brasil a esquerda não deixa de ir à missa e ser tradicionalista, mas não creio que seja caso único. Do outro lado temos o exemplo do CDS-PP, não só com as passagens para peões, mas com a abertura que mostrou perante a revelação da homossexualidade na altura de um dos seus dirigentes. Por essas e por outras é que cada vez mais distinguir esquerda e direita são categorias que já pouco interessam, o que de alguma forma ajuda a interpretar o deslocamento para os extremos, para forçar determinados valores, mas não creio que sirva de nada, só tem palavras de ordem e propaganda, pois a esquerda e a direita parecem se amotoar num centrão em que o simpatizante tem um enorme leque de opções. Outro exemplo que tem sido dado é o da participação social no referente a escutar o povo. Tradicionalmente a esquerda faz essa reivindicação como pilar da democracia, mas na internamente os partidos são pouco democráticos. Mas mais importante que esses posicionamentos é o facto da pessoa não ser necessariamente obediente a todos valores de determinado partido, ainda que simpatize com alguns. O mesmo se pode dizer de quem não tem simpatias. Não me revejo em nenhum partido, tenho obviamente as minhas preferências, mas em determinadas matérias não sigo necessariamente a mesma linha de pensamento ou actuação. Tal não é totalmente um sinal dos tempos, em parte vem do nosso próprio histórico e do entendimento que nos permite das coisas, mas é claro que o centrão molda a nossa forma de ver a realidade. Por outro lado, a descrença na política e a dispersão de visões por partidos personalizados ajudam nas escolhas individuais. Perante tantas visões do mundo não escolhemos qualquer "obediência partidária", seguimos o que achamos que está certo. Não é algo que se possa dizer certo ou errado, os partidos é que perderam essa possibilidade de orientar politicamente as pessoas. De alguma forma o mesmo aconteceu com a religião, ainda que nesse caso um coisa são as igrejas e outra a fé, mas essa matéria guardo para outro momento.

Dar tempo à existência

por José, em 19.05.19

Tem momentos em que o coração pára, sai do peito, deixa de bater. Sem a intensidade das ideologias e a magia do amor não corre menos. Já palpitou a noite inteira. Já se fez à estrada ou para outros voos, mas por momentos apaga tudo isso da existência. A memória é mais forte e faz-se presente em função da bondade das pessoas. Não situa as desistências, por isso o coração pára, sabe que sentiu mas não lembra mais por quem, em que lugares e circunstâncias. O único amor para a vida é o amor pela própria vida, excluindo dessa leitura a amizade, os laços de sangue e fraternidade. O mesmo acontece com as ideologias. Não passam de influências e modas, que nos levam ao mais alto ponto de cedência, mas em seguida não conseguimos mais sentir nem acreditar. Felizes são aqueles que acenam a tudo, aceitando qualquer apelo e resposta mesmo sem vocação. Talvez o caminho mais fácil não seja correr e descobrir, mas erguer a mão a qualquer oferta. O apelo ao descanso e à anomia são a melhor droga daqueles que rejeitam a emancipação. Mas como pode alguém alimentar o desejo de se emancipar se o primeiro predicado está em aceitar o dom e a responsabilidade? O tempo das lutas terminou, vivemos no tempo do lucro e dos interesses, pelo que podemos deixar parar o coração. Podemos parar a Terra e a Lua, não vamos notar diferença. Quem vive na escuridão assim permanecerá, quem busca a luz vai continuar a sua caminhada. O encanto está na busca e no mistério do que vamos encontrar na estrada. Ninguém busca chegar se é feliz. A chegada é aceitar que tudo terminou. Haverá sim um momento para resignar. Temos os nossos limites humanos. Mas até lá não deveremos apenas aceitar e obedecer ao que de brando nos ilude. As grandes transformações não ocorrem no obscurantismo ou no desígnio de quem comanda ou apenas sugere uma escolha. As grandes transformações ocorrem quando tomamos consciência do nosso lugar e aceitamos que não estamos só, que na divergência temos projectos comuns, mesmo que para tal se desligue o coração para dar tempo a quem chega e à intensidade da existência.

Fechado para descanso do pessoal

por José, em 19.05.19

Neste caso é uma esplanada muito normal num bairro de classe média e destinado em grande parte a servir quem usa as paragens de autocarro na avenida principal. É um dos pontos da cidade com muito movimento de passageiros, paralelamente à avenida principal outra rua serve o bairro, é ligeiramente mais elevada, coisa pouca. Naquela área com cerca de 300 metros de comprimento por cerca de 7 de largura tem uma vasta oferta. A avenida que referi é o equivalente a um Itinerário Principal mas com regras de estrada nacional. As chamadas BR são isso mesmo. Geralmente com duas faixas para cada lado mas nas localidades a única regra é não atropelar ninguém. Por vezes têm semáforos, outras as chamadas passarelas para peões, aqui chamados pedestres, ou seja, passagem superior. Mas a todo momento alguém atravessa sem regras. A rua superior tem vários comércios/serviços de ambos os lados. Neste pequeno separador tem quatro restaurantes/botecos. Um deles estava a funcionar 1hora antes. Por vezes tem música ao vivo. É pequeno mas está bem localizado. Neste caso encerra ao domingo.

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Pequenas coisas, necessária mas caras

por José, em 19.05.19

Poderia escolher outros exemplos, mas os que vou dar são suficientes e ilustrativos. O café, aqui dito de expresso pequeno, e o bilhete de autocarro, aqui dito passagem de ônibus, são particularmente caros. O café toma quem quer e a opção caseira e incomparavelmente mais barata. Um pacote de café moído é inferior a 5 reais, já esse do café expresso custa em média 6.50 reais. Tem lugares mais "populares" onde fica mais em conta, ontem bebi a 4 reais. De qualquer modo é caro quando comparado com o café em pó. Pior ainda, são poucos os cafés realmente bons, a maioria é mediano ou ruim. Como dizia, o preço do autocarro é um grande problema, ao lado dele o preço do café é uma brincadeira. Ainda que seja mais barato se comprado antecipadamente através do respectivo cartão, o preço é um roubo. Coitado de quem trabalha e precisa de viajar diariamente. Os autocarros são ruins e não tem passe social, ou seja, uma pessoa gasta em média 10 reais em transporte. Nos tais lugares ditos populares aqui do bairro 10 reais dá para ir buscar almoço e comer em casa. Não é manjar mas tem por esse preço. Esse é um problema muito grande aqui, agravado também pela insegurança. São muitos operadores a actuar na cidade, ainda os operadores para as cidades vizinhas. É uma total falta de articulação e vontade em resolver o problema. Sabemos que transporte público não deve ser pensado com base no lucro, mas várias empresas desarticuladas só podem dar prejuízo e que a venda de bilhetes não consegue pagar. 

Mutirão contra a apatia

por José, em 19.05.19


Os tempos mudaram e nós não sabemos mais quem somos. O silêncio deixou de ser recolhimento e ponderação, é cada vez mais solidão, mas não é uma solidão qualquer medida pela ausência, infelizmente dessa padecem os mais idosos. É uma solidão por falta de ligação, por dificuldade de acesso a bens materiais que garantam distinção e por falta de adesão a práticas sociais que desafiem a norma, sendo que essa norma anda perdida e a transgressão que ocorra não é propositiva, é usada apenas para garantir visibilidade no intergrupo e dar graças a quem nele deseja por perder a cabeça. Mas no meio de tudo isso é apenas uma parte, ainda que marque o lado normativo e a forma como agimos nos grupos de pertença. Existe outra transformação em curso que tem impacto "no hoje e no amanhã" e que resulta, por um lado, da rapidez do processo comunicativo e de como substituimos a agenda de proximidade pelos temas propostos pelas agendas dominantes. Por outro lado, de alguma forma ligado ao primeiro ponto, tem igualmente o debate sobre a verdade, a mentira e como estamos a internalizar a não verdade no processo de comunicação e conhecimento. Refiro-me em concreto ao facto das chamadas fake news serem recebidas por parte de um segmento importante da audiência como a verdade absoluta e descodificada. Temos falhado nos processos de transparência e comunicação institucional, o que abre ao aparente uma brecha para se apresentar como real. Juntando a simplicidade da linguagem, com relato de pseudo factos e rapidez de comunicação temos aí um mundo que parece não ser o nosso mas que na verdade marca até as conversas de vizinhos em contextos mais tradicionais. O tempo do diálogo, da voz e da espera tem dado lugar ao tempo "das novidades", não no sentido do que de novo se apresenta, mas aqui tomado no significado popular de coscuvilhice. Não é o tempo longo e as razões de proximidade que nos interessam. É a vida alheia e a realidade alheia, de preferência distante, para não nos co-responsabilizar, e o tema proposto para cada semana, como se fosse um programa de televisão e o tema de conversa fosse definido pela produção. Saudades do tempo em que as pessoas falavam no tempo, esse meteorológico, do impacto nas sementeiras e das colheitas, para depois falarem sobre o filho ausente, que ligou ou escreveu, ou mandou fotos dos netos. Ou da festa religiosa da aldeia ao lado, em que apesar dos quilómetros se ia a pé e era preciso organizar o farnel. Sem esquecer as necessárias articulações comunitárias para a realização de algumas tarefas, que ainda se pode encontrar na vindima. Que tradicionalmente tem poucos assalariados mas muita gente na lógica de "hoje na tua e amanhã na minha". Os exemplos foram de ambiente rural, mas em vilas e cidades também tinha esses espaços, por exemplo, no momento de obter água em fontanários públicos, para limpeza da rua ou outro tipo. No Brasil a ideia de mutirão vem dessa tradição, que em Portugal quase se perdem, por vezes ressurge em iniciativas localizadas. Fica a dúvida sobre quem mudou o quê, pois se algumas mudanças são mediadas pelos meios, leia-se pelas tecnologias, outras dependem de nós. Faz falta um mutirão contra o conformismo, preguiça e apatia. Culpar as pessoas não chega. É legítimo que busquem conforto e se foquem nos seus interesses. É necessário trabalhar a ideia da Tragédia dos comuns de Hardin. A felicidade e bem estar individual das pessoas não se concretiza se não tiver integração num projecto maior, por exemplo, que incite as pessoas a trabalhar na defesa do planeta, caso contrário vão faltar recursos naturais e o clima muda para todos.

Abordagem multidisciplinar e ideologia

por José, em 19.05.19

Não vamos meter a cabeça na areia e negar que a ciência não está impregnada de ideologia política e isso é particularmente inquietante na América Latina. Em primeiro lugar cabe dizer que a ideologia nunca fez mal a ninguém, pelo contrário. Em segundo lugar, a solução não passa por eliminar a ciência A ou B. Toda a ciência está empreganada, as áreas tecnológicas menos mas não deixam de ter dimensões ideológicas nas opções, visão, aplicabilidade e política de financiamento. A solução existe e está em cima da mesa quando queremos estudar um tema de forma abrangente. A pesquisa coletiva ganha se os grupos tiverem uma formação ideológica e de área heterogênea. Uma leitura multidisciplinar é a solução e sobretudo a semente que falta. A visão em muitos casos sobre alguém oponente ideológico é de inimigo mas deveria ser de colega com uma abordagem complementar. O problema não é apenas de ideologia mas de supremacia e visão redutora de ciência. Por vezes a visão é boa, mas a prática não antecede o discurso. Tal ajuda a reforçar as ciências todas como essenciais à sociedade, com destaque para a medicina, mas o edifício d ciência tem a responsabilidade de lutar pela sua integridade e coesão, caso contrário será capturada por interesses.

Eles ganharam o campeonato, dirigentes, empresários e atletas

por José, em 18.05.19

Cada vez dou menos importância ao mundo do futebol, seja de clubes ou selecção. Parabéns ao Benfica mas a vitória dos adeptos é alegria momentânea, ainda que na falta de assunto vá alimentar conversas e disputas durante décadas. Este futebol empresa tem pouco que deva ser celebrado. É capitalismo puro e duro em que as mais-valias são obtidas pela venda de jogadores, publicidade e bilhetes vendidos. O adepto não é adepto, é consumidor de uma marca, que insatisfeito com o resultado não pode devolver o produto. Para que aprecie a sua marca esta bem untada com ódio ao adversário e regada com a bebida que cada um consiga ingerir. Desporto não admite álcool, mas adepto não consume apenas a marca do clube, bebe qualquer marca de cerveja.  Mas isso é mau? Não acho mau se o mundo da vida for ocupado com várias dimensões na mesma intensidade, de outra forma lembra cannabis sem receita médica e sem perseguição da polícia. Tem o seu lado positivo nas iniciativas das pessoas e amizades que gera, mas além de ser pouco a título individual é esse encher de bolsos de uma minoria. Mas isso é desporto? Nos 90 minutos e mesmo aí com o negócio em vista, tudo mais é como bolsa de valores. Uma bolsa tão grande que tem quem invista todos os poucos valores.

Somos todos embaixadores culturais de Portugal

por José, em 18.05.19

Cada português é um embaixador cultural do seu país quando reside no estrangeiro ou vai de viagem. Além da componente cientifica, não me canso a falar da diversidade cultural do nosso país, com exemplos da tradição, da gastronomia e produtos endógenos, entre eles o vinho e o queijo, da literatura e tradição oral. Já me referi ao grupo de poesia e aos encontros regulares. São uma excelente oportunidade para conhecer a poesia local, regional e nacional do Brasil, mas também para dar a conhecer alguns dos nomes portugueses. Já li tantos que não sou capaz de lembrar todos. Mas não esqueço Fernando Pessoa, sempre universal, e Herberto Hélder, o mestre, assim como Eugénio de Andrade, Natália Correia, Sophia de Mello Breyner, António Gedeão, Jorge de Sena e muitos outros. Na parte dos vinhos também gosto de fazer sugestões aos amigos e amigas que visitam Portugal. O nosso país é apenas do tamanho do estado de Pernambuco, mas possui uma riqueza e diversidade notáveis. Não pensem que o turismo acontece por milagre. Esses são bons atractivos, aos quais se junto o clima, a paisagem, a segurança e o balanço entre a modernidade e o pitoresco.

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