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Crónica potiguar

Crónica potiguar

Mutirão contra a apatia

Maio 19, 2019

José


Os tempos mudaram e nós não sabemos mais quem somos. O silêncio deixou de ser recolhimento e ponderação, é cada vez mais solidão, mas não é uma solidão qualquer medida pela ausência, infelizmente dessa padecem os mais idosos. É uma solidão por falta de ligação, por dificuldade de acesso a bens materiais que garantam distinção e por falta de adesão a práticas sociais que desafiem a norma, sendo que essa norma anda perdida e a transgressão que ocorra não é propositiva, é usada apenas para garantir visibilidade no intergrupo e dar graças a quem nele deseja por perder a cabeça. Mas no meio de tudo isso é apenas uma parte, ainda que marque o lado normativo e a forma como agimos nos grupos de pertença. Existe outra transformação em curso que tem impacto "no hoje e no amanhã" e que resulta, por um lado, da rapidez do processo comunicativo e de como substituimos a agenda de proximidade pelos temas propostos pelas agendas dominantes. Por outro lado, de alguma forma ligado ao primeiro ponto, tem igualmente o debate sobre a verdade, a mentira e como estamos a internalizar a não verdade no processo de comunicação e conhecimento. Refiro-me em concreto ao facto das chamadas fake news serem recebidas por parte de um segmento importante da audiência como a verdade absoluta e descodificada. Temos falhado nos processos de transparência e comunicação institucional, o que abre ao aparente uma brecha para se apresentar como real. Juntando a simplicidade da linguagem, com relato de pseudo factos e rapidez de comunicação temos aí um mundo que parece não ser o nosso mas que na verdade marca até as conversas de vizinhos em contextos mais tradicionais. O tempo do diálogo, da voz e da espera tem dado lugar ao tempo "das novidades", não no sentido do que de novo se apresenta, mas aqui tomado no significado popular de coscuvilhice. Não é o tempo longo e as razões de proximidade que nos interessam. É a vida alheia e a realidade alheia, de preferência distante, para não nos co-responsabilizar, e o tema proposto para cada semana, como se fosse um programa de televisão e o tema de conversa fosse definido pela produção. Saudades do tempo em que as pessoas falavam no tempo, esse meteorológico, do impacto nas sementeiras e das colheitas, para depois falarem sobre o filho ausente, que ligou ou escreveu, ou mandou fotos dos netos. Ou da festa religiosa da aldeia ao lado, em que apesar dos quilómetros se ia a pé e era preciso organizar o farnel. Sem esquecer as necessárias articulações comunitárias para a realização de algumas tarefas, que ainda se pode encontrar na vindima. Que tradicionalmente tem poucos assalariados mas muita gente na lógica de "hoje na tua e amanhã na minha". Os exemplos foram de ambiente rural, mas em vilas e cidades também tinha esses espaços, por exemplo, no momento de obter água em fontanários públicos, para limpeza da rua ou outro tipo. No Brasil a ideia de mutirão vem dessa tradição, que em Portugal quase se perdem, por vezes ressurge em iniciativas localizadas. Fica a dúvida sobre quem mudou o quê, pois se algumas mudanças são mediadas pelos meios, leia-se pelas tecnologias, outras dependem de nós. Faz falta um mutirão contra o conformismo, preguiça e apatia. Culpar as pessoas não chega. É legítimo que busquem conforto e se foquem nos seus interesses. É necessário trabalhar a ideia da Tragédia dos comuns de Hardin. A felicidade e bem estar individual das pessoas não se concretiza se não tiver integração num projecto maior, por exemplo, que incite as pessoas a trabalhar na defesa do planeta, caso contrário vão faltar recursos naturais e o clima muda para todos.

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